22 de novembro de 2017

Câmara Cascudo


Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal no dia 30 de dezembro de 1898, foi historiadorantropólogoadvogadojornalista. No jornalismo começou a trabalhar logo cedo, aos 19 anos de idade no jornal "A Imprensa", de propriedade de seu pai, e depois foi trabalhar no jornal  "A República", de 1939-1960. Neste período de atuação no jornalismo potiguar, já havia publicado quase 2.000 textos. As  crônicas para o jornal “A República”,  já mostrava a sua face de historiador do cotidiano, escrevendo  pequenos textos, chamados Actas Diurnas,  o dia a dia de Natal e de seu povo.  Narrando fatos com personagens ilustres,  pitorescos e anônimos. O que chamou atenção de muita gente e sendo uma das principais atrações do jornal na época.
Ele escolheu escrever no jornal “A República”, porque naquele período já era o melhor jornal do Estado do RN. Foi na “A República”, que ele criou três colunas interessantes, como:  BiblionBiblioteca e Acta Diurna. A coluna Biblion foi lançada em julho de 1928, foi suspensa nos anos 30 e reapareceu no último trimestre de 1933. Nela, Câmara Cascudo comentava livros que recebia de escritores locais e de outros Estados. A coluna Biblioteca, seria no mesmo conteúdo à coluna anterior, foi lançada em maio de 1939 e publicada diariamente até setembro deste mesmo ano.
Acta Diurna, essa considerada a mais importante, foi iniciada em maio de 1939   a 1946. De 1947 a 1952 ela passou a ser editada também pelo jornal Diário de Natal. De 1953 a 1958 a coluna foi suspensa e de 1959 a 1960, a coluna volta a ser publicada pelo jornal “A República”. Foram publicados, na totalidade, 1.848 artigos dos mais variados assuntos. Na coluna Actas Diurnas na “A República” publicou temas como “Sapato emborcado”,  em 31 de dezembro de 1944.  O luto foi branco?,  em 17 de abril de 1941, entre muitos outros. Esses textos levantavam questões  desconhecidas do leitor norte-rio-grandense e  que engrandeceram o conteúdo do jornalismo da época.
Na sua trajetória no jornalismo do RN foi repórter e pioneiro do “Jornalismo Cultural”, introduzindo temas como história, geografia, folclore, fato inédito até aquele momento. No decorrer dos anos, Câmara Cascudo tem sido homenageado de várias maneiras. A mais tradicional tem sido dar seu nome à instituições ligadas à cultura. Como por exemplo:  o Memorial Câmara Cascudo, a biblioteca e do museu que levam seu nome.  A conservação da casa da “Junqueira Aires”, onde Cascudo viveu a maior parte de sua vida, também faz parte de sua homenagem.

Ele passou toda a sua vida em Natal e foi professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Pesquisador das manifestações culturais brasileiras deixou uma ampla obra, inclusive o Dicionário do Folclore Brasileiro (1952). Entre seus muitos títulos destacam-se: Alma patrícia (1921), Contos tradicionais do Brasil (1946). Estudioso do período das invasões holandesas, publicou Geografia do Brasil holandês (1956). Suas memórias, O tempo e eu (1971), foram editados postumamente. Ele faleceu em Natal, 30 de julho de 1986.

14 de novembro de 2017

Eloy de Souza



Eloy Castriciano de Souza foi um jornalista, escritor talentoso e diretor do jornal “A República” no período de 1937 a 1941. Ele teve um trabalho jornalístico respeitável, durante este período que exerceu à frente deste veiculo de comunicação. Além da promoção de notícias do Estado, criação de colunas com escritores do RN, publicações de bons artigos, deu condições ao jornal de ser uma verdadeira escola para os jornalistas potiguares.
Escreveu centenas de artigos, crônicas e alguns assinados com o pseudônimo Jacinto Canela de Ferro (Cartas de um Sertanejo). Sua passagem pelo jornalismo foi tão brilhante que lhe rendeu homenagens depois de sua morte. No próprio prédio da Republica, hoje Departamento Estadual de Imprensa, DEI , foi organizado em 13 de novembro de 2003 o Museu da Imprensa do RN e inaugurado um ano depois - 13 de novembro de 2004- acrescentando o nome do patrono, Eloy de Souza.
O Museu é uma grande referência da imprensa no Estado, onde se vê lembranças mais antigas, de como eram feitos os jornais da sua época, e como as máquinas impressoras funcionavam. Também no local poderemos encontrar o conteúdo da imprensa, colunas do jornal “A República” as formas de notícias, artigos doutrinários e os romances em capítulos. Isso, para quem for visitar ter a noção exata de como funcionava o jornalismo do seu período como diretor deste órgão de comunicação.  
         Além de uma passagem brilhante pelo Jornal “A República” antes ele tinha exercido cargo político no RN. Em 1897, foi eleito Deputado Federal aos 24 anos de idade, sendo o mais jovem do Brasil. Em outras ocasiões se elegeu mais de uma vez ao cargo de Deputado Federal. No período de outubro de 1935 a 1942 foi eleito pela Assembléia Constituinte Senador . Em sua homenagem na carreira política existe no Estado do RN o município ‘Senador Eloy de Souza’.
Notabilizou-se por um discurso pronunciado na Câmara dos Deputados, que depois foi publicado em forma de livro: “O Calvário das Secas”; que inspirou o Governo Federal a criar a Inspetoria de Obras Contra as Secas, que depois passou a chamar-se DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, cujo regulamento foi redigido por ele. Nasceu em Recife no dia 04 de março de 1873, mas era de família norte-rio-grandense. Era irmão da poetisa macaibense Auta de Souza e do também poeta e educador Henrique Castriciano, criador da Escola Doméstica. Ele faleceu aos 87 anos, em 1959.
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7 de novembro de 2017

Leitura Cirneana dos Quadrinhos

     Moacy Cirne


Anchieta Fernandes

   Incontestavelmente, um dos mais lamentáveis acontecimentos para a cultura brasileira neste ano, foi o falecimento, em Natal, no sábado, 11 de janeiro de 2014, do escritor(poeta, crítico e teórico de literatura, cinema, quadrinhos e política) Moacy da Costa Cirne. Um norte-riograndense de talento multifário. Talento este que formou a sua base maior desde o 12 de março de 1967, quando chegou ao Rio de Janeiro, para ali morar definitivamente.
   A importância da transferência de sua moradia, de Natal para o Rio de Janeiro, é que somente no RJ, em contato com livrarias que vendem livros e outras publicações estrangeiras destinadas a estudar a teoria das EQs (coisa rara na Natal da época, que só vendia as publicações corriqueiras das revistas nacionais) ele despertou para o valor estético e sociológico dos quadrinhos, embora já fosse um leitor entusiasmado de revistas em quadrinhos.
   Já escrevi certa vez, e o repito agora com outro referencial temporal após sua morte (embora seja o óbvio para qualquer leitor bem informado): Moacy Cirne foi o mais respeitado crítico, historiado e teórico das histórias em quadrinhos no Brasil. E com a marca do pioneirismo: seu livro “BUM! A Explosão Criativa dos Quadrinhos” foi o primeiro a se publicar no nosso país sobre o tema. Editado pela Editora Vozes, de Petrópolis, foi lançado em 1970, ganhando durante alguns meses a categoria de best-seller, pois passara a ser o mais vendido de prosa de não-ficção nas livrarias brasileiras.
   Leitor e estudioso do assunto, MC apresentou os resultados de suas pesquisas no livro, um denso e atualizado ensaio que respondeu a em progressobreHQ . Como e quando nasceu a história em quadrinhos? Qual a razão do seu êxito? Quais as particularidades de sua linguagem? Quais as suas relações com os outros meios de comunicação do nosso tempo? Qual a sua influência sobre aliteratura de vanguarda no Brasil e no estrangeiro? Como é a história em quadrinhos brasileira? Como será a história em quadrinhos do futuro? – a todas estas perguntas o livro de MC respondeu.
Em 1971, novo livro de MC pela Vozes: “A Linguagem dos Quadrinhos – O Universo Estrutural de Ziraldo e Maurício de Sousa”. Desta vez, “além de levantar alguns problemas ideológicos e econômicos da maior relevância cultural, específicos à nossa realidade contextual, estuda (pela primeira vez entre nós)a experiência do Pererê, de Ziraldo, e a obra em progresso de Maurício de Sousa” (da orelha do livro). O leitor do livro ficou sabendo reconhecer os procedimentos onomatopaicos em Ziraldo, as melhores estórias da revista Pererê (que circulou de 1960 a 1964, editada pela Empresa Gráfica O Cruzeiro), a metalinguagem e o absurdo ontológicoo em Maurício de Sousa.
  MC não parou depesquisar e estudar os quadrinhos, e, concomitantemente com seus livros de poemas (em versos e visuais), de ensaios literários e sociológicos, de estudos e crítica sobre outra área cultural – que é o cinema (uma outra paixão de MC, já que foi cineclubista em Natal, fundador do Cine Clube Marista, e ex-presidente do Cine Clube Tirol)  - continuou contribuindo com novos livros ao levantamento das questões que dizem respeito aos quadrinhos.
   Em 1972, publicou (novamente pela Vozes, de Petrópolis) o livro “Para Ler os Quadrinhos – Da Narrativa Cinematográfica À Narrativa Quadrinizada”, onde “focaliza uma das mais profundas relações estruturais da arte contemporânea a partir da problemática da leitura, instaurando a narrativa como pólo centralizador de duas linguagens distintas; a relação cinema/quadrinhos” (do texto na contracapa). Sempre apoiado na semiologia e numa leitura criativa oriunda da vanguarda, MC deteve-se nos mais variados aspectos: a imagem, a tela e a página de revista, o primeiro plano, os cortes elípticos, a decupagem, os blocos significacionais (expressão, aliás, criada por MC, para definir a composição gráfica de momentos narrativos) etc.
Dez anos depois, a visão de MC sobre os quadrinhos atingira um razoável embasamento político. Em 1982, aEditora Achiamé, do Rio de Janeiro, publicou seu livro “Uma Introdução Política Aos Quadrinhos”. Nele, oescritor seridoense analisou, dentre outras vertentes temáticas, as seguintes: o papel dos quadrinhos em relação à luta dos trabalhadores; a questão de um quadrinho politicamente combativo; a ideologia dos super-heróis; o imperialismo cultural em Mickey e Tio Patinhas; o negro e a mulher nos comics; o mundo de Mafalda; o imaginário gráfico no quadrinho moderno; a relação cartum/quadrinho e o quadrinho alternativo brasileiro; Zeferino e Graúna: a escrita de Henfil.
A seriedade da pesquisa histórica e da colocação críticae teórica de MC levou o Ministério da Cultura, através da FUNARTE, a encampar a publicação do seu livro “História e Crítica dos Quadrinhos Brasileiros”, que foi lançado em 1990, em uma edição da Europa – Empresa Gráfica e Editorial, do Rio de Janeiro. É um livro de mais de 100 páginas, todo ilustrado, e abrangendo toda a produção brasileira no gênero, inclusive as criações de desenhistas e roteiristas do Rio Grande do Norte. Este livro recebeu o Prêmio cubano Las Palmas.
   O sexto livro de MC sobre o tema revestiu-se de uma característica interessante: desde o título (“Quadrinhos, Sedução e Paixão”, publicado pela Vozes em 2000), mostrou que o crítico sério, marxista, sociólogo das comunicações, era também um leitor apaixonado dos quadrinhos. Ou – como é explicado na orelha do livro –afinal, a febre sociológica, que norteava os primeiros ensaios sobre os quadrinhos, nos anos 60 e 70, já passara. O momento exigia uma reflexão mais profunda sobre as potencialidades criativas e seus devaneios oníricos, assim como continuava exigindo uma visão acurada de seus embates ideológicos e de sua relação com as novas tecnologias e algumas das demais linguagens do campo artístico.
   O último livro de MC sobre o tema quadrinhos, que foi “A Escrita dos Quadrinhos”, publicado em 2005 pela editora Sebo Vermelho, traz um estilo que emociona, substancializado inicialmente (primeiro capítulo: “Meus primeiros gibis”) pela memória. MC escreve/explica: “meus amigos, minhas amigas, companheiros e companheiras de viagem cultural, não estou aqui para fazer teoria, pois já o fiz (particularmente em Para ler os quadrinhos, 1972, e Quadrinhos, sedução e paixão, 2000). Estou aqui, istodespedida.”
   Esta última frase pode levar às lágrimas os amigos do escritor falecido. Mas seria apenas uma maneira de dizer, emocionadamente, que era o último livro sobre quadrinhos que ele escreveria? Porque, embora tenha um estilo mais juvenil (até humorístico em determinados trechos) e um leque de assuntos mais abrangente que apenas quadrinhos (incluindo ficção científica, cinema, pintura etc.), no livro o impulso de teorizar não deixou de estar presente (e isto não é uma coisa negativa; teorizar é necessário para se explicar posições críticas e análises de linguagens); como, por exemplo, a visão da poeticidade visual dos quadrinhos (v.p.81 do livro: “Em sendo uma escrita gráfica, as Histórias em Quadrinhos alimentam-se formal e estruturalmente de procedimentos técnicos visuais que estão em sua base semiótica de produção e realização. Por isso mesmo, mais do que outros discursos da arte sequencial (particularmente, cinema e telenovela), os quadrinhos podem se aproximar da poesia visual”.
   É importante saber que, em “A Escrita dos Quadrinhos”, MC não condenou o uso internáutico dos quadrinhos. Diz ele: “Os quadrinhos, que sempre se valeram do papel como suporte material, passam a ser uma nova linguagem, ainda em fase de transição criadora, a partir de elementos de sua própria linguagem, além de procedimentos técnicos comuns à computação gráfica, ao cinema de animação e à interatividade proporcionada pela internet e suas maravilhas no campo das conquistas provenientes da tecnologia.”

   No entanto, MC, como um sempre elogiável humanista aberto à visão planetária, alerta no livro que “praticamente toda a África e partes consideráveis das Américas e da Ásia ainda não vivem o processo de informatização de seus núcleos sociais”; e que “seus problemas de sobrevivência não são meras abstrações metafísicas. Esses núcleos, considerados socialmente, precisam antes lutar por conquistas básicas mais urgentes, sem as quais a dignidade humana pode se perder no mais vazio e cruel dos mundos. Afinal, para a grande maioria de seus habitantes, massacrados pela fome e pela miséria, trabalho,moradia, transporte, saúde, alimentação e educação fundamental são mais importantes do que qualquer hipertexto.”

Texto publicado na edição do Suplemento cultural "Nós, do RN" - fevereiro de 2014

31 de outubro de 2017

A GRANDEZA DE UM PEQUENO ESTADO


O Rio Grande do Norte é um pequeno Estado, mas possuidor de uma grandeza extraordinária. Vejamos alguns inusitados exemplos, na formação dos privilégios ditos sagrados e profanos ou aquilo que a história nos registra com seriedade e absoluta autenticidade. Para fortaleza da fé, temos três dioceses e para glória das letras, 4 academias bem conceituadas: a de Letras, a de Trovas, a de Medicina e a de Odontologia.
Seguimos a literatura com unhas, nervos e dentes. Somos uma terra abençoada por Deus e agraciada pelos deuses. Em todos os países católicos e ditos apostólicos, romanos, espalhados pelo globo terrestre, a beatificação ou canonização que permite o santo subir aos altares só acontece com um agraciado. A Segunda Santíssima Trindade, composta com a presença do Filho – Jesus, Maria e José – deve-se à divina missão, aqui na terra, confiada pelo Pai para remissão dos nossos pecados. Nessa sagrada sequencia, aparecem os Três Reis Magos, feitos santos pela piedade popular, independente de qualquer dogma de fé. Os Reis Magos desembarcaram em Natal e habitaram o nosso Forte, em forma de retábulo, em 1598, isto é, 98 anos após a celebração da primeira missa, em terra brasílica. Das Onze Mil Virgens lideradas pela britânica Santa Úrsula faz-se muita restrição à peregrinação virginal devido ao caráter lendário que envolve aquelas vestais. Não se sabe se o martírio dessa multidão de santos foi praticado pelos hunos de Atila ou pela perversidade dos romanos de Maximiano, o que resulta mais de um século entre o vândalo e o bárbaro.
Cosme Damião, árabes, irmãos e médicos, amigos dos pobres e inimigos do dinheiro, afirma os hagiólogos que foram decapitados no governo de Diocleciano por ordem do desalmado procônsul Lísia, isso lá pelo ano 287. O papa São Felix IV, no ano 530, erigiu-lhes uma igreja em Roma e assim eles subiram aos altares. Por sua dedicação aos pobres e nunca lhes terem cobrado uma consulta, foram apelidados, em grego, de anargyroi (sem prata), os únicos médicos do mundo inimigos de dinheiro, um belo exemplo de pobreza que deve ser um repúdio à classe argentária da qual eles são legítimos patronos. Já tivemos, aqui, recentemente, uma dupla de policiais vigilantes e andarilhos crismados pelo Comando como Cosme e Damião. Ignoravam os xarás médicos da Arábia e, em vez de bisturi, usavam revólveres e cacetetes. Não eram inimigos do dinheiro, mas ganhavam pouco e nada lhes sobrava para esmolas ou ajuda aos amigos. São escorços raros, mas não são lendários. Quanto à canonização, o modelo predominante é a beatificação de apenas um escolhido recomendado aos céus através de meticuloso exame e, ainda por cima de tudo, obedecendo a processo acompanhado do advogado do diabo. Esse acusador diabólico já vem de longe. Para depurar a paciência de Jó, consentiu o Senhor a intervenção de Satanás e entregou Jó ao seu poder – ecce in manu tua est (Jó 2,6), e Jó ficou à disposição de Satanás cujo objetivo era esgotar-lhe a humildade. Aqui na terrinha do índio Poti, em breve por cuidadoso processo teremos 30 santos e mártires beatificados de uma só vez, o que muito fortalece a nossa fé.
Em todas as Academias literárias do mundo, a disputa por uma vaga é bastante renhida. Costumeiramente, dois conspícuos competidores lutam pela sorte da imortalidade olímpica. O vitorioso prevalece-se do critério de justiça; o derrotado sente-se injustiçado. Surgem dissabores e inconformações.
Algumas Academias são exageradamente muito exigentes. Schopenhauer, por exemplo, certa vez, concorreu ao concurso da Academia de Copenhague com seu livro Fundamento da Moral.
O livro estava cheio de insultos a Hegel. Foi candidato único e deixou de ser premiado. Passou a amar o seu cão sobre todas as coisas por ser o mais próximo amigo do homem.
Aqui entre nós outros, ad lucem versus, elegem-se 3 deles de uma só vez, no mais compreensivo processo de igualdade e imortalidade, porque cada um é único, livre e de bons costumes. Por serem únicos, não incorrem no risco da injustiça. Três posses lhes são asseguradas. No mesmo vagão, embarcam 3 sócios honorários ad majorem Academiae gloriam. Nesse belíssimo exemplo de tolerância universal, os três eleitos e os outros três escolhidos passam a gozar do mesmo encanto dos três deuses principais do Olimpo ou das três Graças da mitologia romana e brilham como as três estrelas da constelação de Orion, conhecidas como as Três Marias.
Nossa Academia segue fielmente o conselho de Tobias a seu filho: quod ab alio oderis fieri tibi, vide ne aliquando alteri facias – nunca faças aos outros o que não quere que os outros te façam. É essa a filosofia adotada pela nossa Academia de Letras, na grandeza de suas intenções e na presteza de suas adoções.
Na política, temos o clã, aquilo que no inglês medieval chamava-se clann e se restringia às tribos irlandesas e escocesas.
Nos tempos bíblicos, o clã era o mesmo que tribo e significava bastão, em hebraico shebet, emblema da tribo, símbolo de autoridade e comando. O cetro do rei ou o básculo do bispo. Os integralistas usavam, na lapela, a letra grega sigma, no sentido matemático de soma integral do produto; e o integralismo foi forte e valoroso, em nosso Estado. De tribos só tivemos as dos índios. Uma delas valorizou heroicamente o bastão de comando do guerreiro Poti. Nas festas de Momo, ainda hoje desfilam os índios do Alecrim, que servem de atração ao nosso carnaval.
Entre nós habitantes do pequenino Estado, dispomos da grei familiar, o que os romanos chamavam grex, no sentido de rebanho de gado miúdo. Nosso rebanho familiar é graúdo e congrega politicamente avós, pais e netos. Os latinos faziam grande diferença entre sobriuns e patruelis, o que nós englobamos como sobrinhos. Sobriuns era o filho da irmã e patruelis o do irmão. Nota-se que entre os romanos havia um pouco de preconceito na relação de parentesco. Nepos, nepotis era o neto. Cícero, no seu De lege agraria, chamou a esse nepos de perdulário. No Evangelho, tem igual conceito o filho pródigo – filius vivendo luxuriose.
Quanto ao nepotismo (o vínculo com o neto) três infalíveis papas o transformaram em favoritismo excessivo dispensado ao seus sobrinhos, porque nepote passou a ser sobrinho do Santo Padre. No livrinho chamado Arte de Furtar, esse nepote é reconhecido como confidente do Soberano Pontífice. A Arte de Furtar, se não é lido, é pelo menos muito apreciado em nosso país, porque aqui se furta com arte. E o nepotismo, em nosso Estado, aperfeiçoou-se com mais graça do que aquela concedida pelos papas e traduz os seus invejáveis privilégios.
Entre outras maravilhas, Natal ainda goza da reputação de possuir o melhor clima do mundo. Possui também a fama de ser o Estado onde mais se rouba bancos, o que permite ao assaltantes o privilégio pela facilidade da rapina. O que antes era violência, hoje se registra como simples ocorrência. A Segunda Grande Guerra abalou o mundo. As batalhas ocorreram muito distante do nosso Cabugi ou dos estrondos de Baixa Verde. Duas mil léguas longe daqui aconteceu o Dia D houve a pacificação pela invenção do armistício e, finalmente, a assinatura da rendição do Japão, lá pela baia de Tóquio.
Antes disso, o Presidente americano se dignou conferenciar pacificamente com o nosso Presidente brasileiro, aqui no estuário do Potengi amado. No auge da guerra, desfilaram, pelas ruas e Natal, personalidade ilustres oriundas de outros países: generais, príncipes e estrelas da constelação de Hollywood. Terminada a guerra, coube a Natal a glória inusitada de ter sido o Trampolim da Vitória, o teatro de hostilidades mais pacifico do universo, no qual jamais se viu um exército em marcha belicosa ou se ouviu um tiro de canhão, a não ser a festiva salva de tiro reservada ao general, o que se chama tiro de festim e só serve para assustar crianças e abalar os nervos dos velhos.
Festim é uma palavra tão miúda que até lembra chumbo de espingarda na caça de arribaçã, o que também é um privilégio reservado à nossa macambira e seria bem mais proveitoso se não houvesse a intervenção do IBAMA. Do nosso Trampolim da Vitória fez-se um filme “for all” – para todos. Nenhum relacionamento com forró. A invasão holandesa concorreu para fertilizar o viveiro de mártires e de santos. Durante aqueles longos anos de ocupação, nosso estado assemelhou-se à Roma de Vespasiano e a nossa capital chamou-se garbosamente Nova Amsterdam. É pena que os invasores não tivessem imposto o idioma batavo para maior engrandecimento de nossa cultura linguística e de nossa hagiografia no rastro dos bolandistas ocupados com a Acta Sanctorum.
O nosso índio Poti, herói de raça, nascido ali em Aldeia Velha, recebeu a graça do batismo com o santo nome de Antônio e o título de Dom, uma distinção de tratamento só concedido a reis e bispos entre Espanha, Portugal e Brasil, Por pouco não foi santificado para honra e glória da aldeia.
Num Estado castigado pelas estiagens, dispomos da maior barragem do mundo, o que deixou a Assuã arrasada. Em 1991, tivemos a divina graça de recebermos cristamente o legítimo representante de São Pedro, que veio direto do Vaticano encerrar, aqui em Natal, o XII Congresso Eucarístico Nacional. E por último, ainda usufruirmos do Carnatal, no que somos genuinamente criadores, competindo momescamente com o outro de Sapucaí. Isso nos permite a feliz oportunidade de ensaiarmos a batalha de confeti e brincarmos irresponsavelmente 2 vezes por ano durante 2 semanas consecutivas, o que nos cabe 15dias de festas intermitentes. Como a folia foi criação nossa e já se espalhou por outros Estados e municípios, já nos obrigamos cobrar direitos autorais.
Em matéria de botânica, possuímos o maior cajueiro do mundo. Nas arrojadas navegações e descobrimentos de terras longínquas, recebemos a visita de Américo Vespúcio que em junho de 1499 velejou pelo delta do Açu em cujas margens fundou feitorias. Isso pelo menos é o que nos dizem alguns historiadores inventivos.
 Já agora somos responsáveis pelo descobrimento do Brasil. A carta de Pero Vaz foi erroneamente data na ilha de Vera Cruz, porque Porto Seguro é o Cabo de São Roque, onde Cabral desembarcou em 1500. A primeira missa celebrada em terra firme foi diante dos primitivos potiguares e Jorge Dosoiro foi transferido de Sam Thomé para Touros. O Cabugi de Aluizio Alves - é o monte Pascoal avistado por Cabral. Não é maravilhoso?!
Recentemente, um respeitável médium, com experiência “na vida passada”, o que ele chama de “pretérito espiritual”, em entrevista ao suplemento Podium (07.09.98), disse que, na Praia de Natal, existiu uma “Base dos Atlantas” chamada Atlan, anagrama de Natal, Isso há 1.500 anos, presumivelmente A.C. quando o mar aqui era gelado.
Não vamos discutir o trânse mediúnico ou o karma kardecista envolvendo o perispírito. O importante, segundo o médium, é que atualmente “encontra-se reincarnado aqui em Natal a maioria dos discípulos que seguiram Jesus, no seu ministério”. Par engrandecimento da cidade isso nos basta.
Essa visão mediúnica não é só privilégio seu, é também nosso privilégio ter essas santas criaturas vivendo entre nós outros tão distanciados da pregação de Jesus. Ora, Jesus, depois da ressurreição, na aldeia de Emaús, apareceu a 2 discípulos incrédulos. Aqui em Natal temos uma outra Emaús, onde fica A Morada da Paz. Nessa morada silenciosa, em breve, depois de sepultada, reflorescerá uma nova imortalidade acadêmica, em forma de quiliasmo. Aquilo que estava previsto para o ano 1000, em Jerusalém, com a vinda de Jesus, poderá acontecer em 2001, em Natal, na aldeia de Emaús, em Parnamirim, que será o segundo Trampolim da Vitória. Em breve teremos lá inaugurada a Academia dos Renascidos.
Por outro lado, no setor cultural, Natal é a cidade que lança mais livros no mundo, em todos os gêneros literários, às vezes até dois livros por mês o ano inteiro. Quem sabe se o autor do Paraíso Perdido também não está reencarnado entre nossos bons intelectuais reorganizado seu segundo pandemonium, o que será um achado.
Com estas mudanças no curso da história favorecendo e engrandecendo nosso pequenino Rio Grande, fica também provado que o barão de Munchausen nasceu em Natal e não em Hanover e privou da amizade do barão da Redinha, ad majorem terrae gloriam.
Se Jesus um dia voltar à terra, estou certo de que virá para Natal. Aqui jamais será crucificado e viverá em paz entre os ladrões. Os poucos judeus que migraram para cá ainda não tiveram tempo de erigir um sinédrio (em Pretório nem se fala) por conseguinte estaremos sempre livres de Anás, Caifás e Herodes; e que Pilatos permaneça lá no Credo onde o colocou Santo Atanásio para ser relembrado nas missas dominicais. Esqueçamos Judas. Presumivelmente, segundo as tradições do século IV, foi a Fortaleza Antônia, em  Jerusalém, que serviu de Pretório ou Tribunal onde Jesus foi julgado. Aqui em Natal temos a Fortaleza dos Reis Magos, que também tem a forma de estrela (Pentágono dos Magos) e para lá, na tradição da estrela de Belém, Dom José, rei de Portugal, nos mandou, em 1755, as três imagens dos Reis Magos, outro privilégio da cidade presépio. Que queres mais?
Deixemo-nos embalar nesse doce enlevo de vida alegre e gozemos dos privilégios que Deus se dignou reservar para taba de Poti. Hoje já podemos repetir imperativamente sem nenhum exagero de plágio:
-Criança!... não verás Estado nenhum como este; e não fiques aí a ouvir estrelas. Nosso céu é limpo e estrela não é sino que se ouça. Quando Bilac inventou de ouvi-las estava surrupiando uma frase de Arsêne Houssaye, que as ouviu antes dele, segundo nos revela Agrippino Grieco; Rafael Cansinos Asséns, citado por Jorge Luis Borges, gabava-se de estudar as estrelas em 14 idiomas. Muito antes dele, o capitão inglês Francis Burton, tradutor de As Mil e Uma Noites, deixando seu povo familiarizado com os 40 ladrões das Noites Arábicas, arrogantemente, dizia que sonhava com as estrelas em 17 idiomas. Ambos eram astrólogos sonhadores. Nossos poetas de cá, por mais inspirados, não chegaram a tanto. Olham as estrelas sem ouvi-las nem contá-las; e em plácido silêncio perdem-se no mundo da lua, o que é outro encanto da terrinha querida.
-Criança!... não verás Estado nenhum como este.... ora você veja só!...


(Transcrito do Jornal “O GALO” maio/junho 1999 – José Melquíades de Macedo (falecido), foi professor da UFRN, escritor e romancista).

27 de outubro de 2017

RIBEIRA, MENINA-MULHER.


Cúmplice do passado-presente,
Observadora
...quando a noite chega.

Mulher expectadora
Calada
...vivida.

De vidas
Sorrisos, tristezas
... da cidade Natal

O Rio Potengi a beija
Na lama, no pôr do sol
... amantes em plena luz do dia

Realmente a quem tu te entregas?
Ao poetas?
Aos bêbados?

Teus caminhos impregnados
Nas idas e vindas do cais
És partida e chegada sem digitais .


Grita teu nome nos restos das paredes
Berra tua história
...como agonia dos peixes

Volte a ser menina dos anos dourados!
Acendendo a luz do presente
Embalando como brinquedo o passado.

(Yasmine Lemos)