15 de setembro de 2017

Ao meu olhar, o serpentário



Carlos Henrique G. Leiros

   Nos idos de 1970, o bairro do Alecrim rivalizava em importância com a Cidade Alta, e ainda não havia se transformado no subúrbio triste e impessoal de hoje, abraçado por uma feira com manias de grandeza e despido dos velhos casarios. Respirava-se ali uma atmosfera de burgo; tinha-se ali noção das redondezas. Bastava que se subisse a uma cumeeira e a visão dos prédios de baixo porte se alongava, emoldurada por árvores velhas e quintais saudosos. Isso não existe mais. O Alecrim era sinônimo de classe-média, terra de amanuenses e funcionários públicos. Ninguém cabia em si de tanto orgulho dos loucos, como Lambretinha e Corisco, o primeiro chutando as latas de lixo, e o segundo jurando morte àqueles que o acusavam de haver roubado as imagens da Igreja de São Pedro ou mordido o nariz de Frei Damião.
   Eram os tempos do Cine São Luiz, do prédio da Souza Cruz na esquina da Presidente Bandeira, recepcionando quem desembocava dos lados da Sílvio Pélico, da Base Naval, da Alfaiataria de Ebenezer e da casa de Tatu, figura das mais folclóricas do bairro. Ali, no comecinho da Presidente Bandeira, eu morei por anos. Na Presidente Bandeira, principal do Alecrim, vivi tempos de garbo e traquinagens, chegando a conhecer bem o seu primeiro terço, que se estendia até as imediações das funerárias e do velho prédio do Detran, já uma famosa sinecura.
   Depois do relógio, para os lados das Quintas profundas, eu nunca me aventurei. Tampouco conhecia o lado oposto, além da feira, nos confins do “Chapéu Cagado”, onde, dizia a minha mãe, morava um louco encarcerado. Além do Café Vencedor, terras de Brasa de Goma e seu feérico desempenho de alcova, muito menos. Fui menino apenas da Presidente Bandeira e cercanias. É dessa época a minha experiência com o saudoso serpentário. Não me lembro por quais mãos o sinistro ônibus se apresentou perante o bairro. Lembro somente que minha mãe ou meu pai comentou a respeito. Um belo dia ele estava lá, e eu o vi, estacionado na calçada d'A Girafa, com o povaréu ao redor.
   O serpentário era motivo de assunto em qualquer lugar, e todos comentavam s o b r e o ô n i b u s comprido e niquelado, c o m a s j a n e l a s gradeadas, e repleto de gaiolas, onde, dizia-se, a g l o m e r a v a m -s e bichos peçonhentos de toda a sorte e à vista de todos, bastando apenas que o incauto pagasse uma módica quantia para ter acesso ao covil d a s f e r a s , n u m fantástico arremedo de Freak Show ou Feira de Aberrações. Na porta do serpentário, um velho de aspecto dantesco completava o ambiente, que se tornaria propício a inúmeros dos meus pesadelos. Logo cedo, fazia-se a romaria dos curiosos - homens puxando meninos, cabrochotes da feira, gente desocupada – formando fila. Uns estrebuchavam na saída, aos trotes e aos prantos de medo.
   Outros se retiravam desmistificando o espetáculo, mas, nesses, eu nunca acreditei. Diziam-me que entre os animais aprisionados as cobras eram a sensação, mas não se podiam descartar os aracnídeos e roedores ferozes, timbus, etc. O único senão era a insuportável catinga que exalava do velho ônibus, fruto dos dejetos e urina acumulados. Como nunca reneguei qualquer patifaria infantil, idolatrava e defendia até mais não poder o serpentário e seu suspeito mestre de cerimônias, principalmente quando os adultos se queixavam do mau cheiro e ameaçavam queixas à Saúde Pública. Ali compareci diversas vezes, acompanhado de Francisca, uma saloia amulatada que era dama de companhia de minha mãe. E por uns tempos, abandonei a farda de polidoro (do Exército, com coturno e tudo), com a qual desfilava o dia inteiro ao redor da casa. Mas os dias do serpentário estavam contados.

   Não sei se por queixas ou por simplesmente representar uma atração sazonal, uma certa manhã o ônibus anoiteceu e não amanheceu. Foi-se a maior sensação daqueles tempos no Alecrim, pelo menos para mim. Diria mais: na minha humilde concepção de criança, nada suplantou o serpentário. Nem as comédias no Cine São Luiz; nem as passeatas ao som de “vou barrar o fechador”; nem as visitas ao túmulo de Baracho. Que me de s culpem Lambretinha e Corisco, Brasa de Goma e a Velha da Carimã, todos guardados no coração como adorados bibelôs. Mas é que diante do maravilhoso serpentário, tudo parece apenas coadjuvante em minha já nublada memória de alecrinense.

11 de setembro de 2017

MÚSICA POPULAR BRASILEIRA



Severino Vicente

Para compreendermos a riqueza de ritmos e melodias contidos na música popular brasileira, num país de proporções continentais, é necessário um olhar que remonte há duzentos anos atrás, onde estão fincadas suas raízes. As cidades de Salvador e Rio de Janeiro, os centros mais adiantados do Brasil à época, são responsáveis pelo surgimento dos primeiros gêneros musicais brasileiros. A modinha e o lundu.
A modinha é um gênero musical de origem ibérica que ganhou prestígio no final do século XVIII nos salões da nobreza portuguesa, sofrendo influência da valsa, saiu do popular para o erudito. Entre os seus mais importantes compositores destacamos o Padre José Maurício e Carlos Gomes, autores das famosas modinhas “Tão longe de mim distante” e “Suspiros d’Alma”.
O lundu, uma dança de negros, marcada pela ironia e umbigada. Conseguiu se afirmar com o compositor Domingos Caldas Barbosa, alcançando os salões da fidalguia da metrópole. Este ritmo saltitante foi sucesso e proporcionou fortuna a compositores como Francisco Manuel da Silva, autor do Hino Nacional, com o “Lundu da Marrequinha”.
Do lundu originou-se o choro no Rio de Janeiro, com músicos que se reuniam para alegrar festas em casas de família. Davam arranjos às melodias à sua maneira, tocando em estilo chorado que eram denominados de “chorões” pela população. Um dos mais importantes compositores de “chorinhos” foi Vila-Lobos, participante assíduo dessa confraria.
Estávamos no final do século XIX quando surge a consagrada Chiquinha Gonzaga, a “Vovó da música popular brasileira”, primeira mulher no Brasil a participar de um grupo de chorões com sua famosa marcha “Ó abre alas”, inspirado nos ritmos da musicalidade negra que deu ao carnaval carioca algo de inconfundível.
O objetivo do grupo dos chorões era adaptar esses ritmos a uma tendência puramente brasileira, começando com o maxixe na década de 1920, substituído pelo samba, espalhando-se pelos centros urbanos como música típica dos brasileiros com Ernesto dos Santos (Donga) através do sucesso “Pelo telefone”. A partir daí o país é invadido por este contagiante ritmo musical originado do batuque dos negros e que tem no compositor mineiro Ary Barroso um dos principais protagonistas na década de 1940: “No tabuleiro da baiana” e “Aquarela do Brasil”, sucesso absoluto na voz inconfundível de Carmem Miranda. O samba chegou ao morro carioca, conquistou as avenidas iluminadas e, através das escolas de samba, tornou-se a maior atração do carnaval carioca e contagiou o Brasil.
Derivada de ritmos negros do carnaval carioca surge a marcha, “Ó abre alas”, de Chiquinha Gonzaga. Samba e marcha no século passado ganharam prestígio e sucesso com aparecimento do rádio e das gravadoras de discos, com músicos e compositores oriundos da classe média que se apossaram desses ritmos para encher o Brasil de alegria, ginga e boemia. Eram marchinhas, marcha-rancho, samba-canção, samba de breque, samba-choro, tendo Pixinguinha como um dos seus mais autênticos representantes. “Carinhoso”, quem não canta? Um clássico: “Meu coração/ não sei por que/ Bate feliz/ quando te vê (...)”.
Outros valores sacodem o Brasil, vou citar apenas alguns: Noel Rosa, “O orvalho vem caindo”, “Estrela d’alva”; Zequinha de Abreu, “Tico-tico no fubá”; Lamartine Babo, “O teu cabelo não nega” e “Juju balangandans”; Ataulfo Alves, “Saudades da Amélia”; Joubert de Carvalho, “Maringá”. Apesar de existir outros grandes nomes vou ficando por aqui com o Zé Kéti e sua “Mascara Negra”, Dorival Caymi e suas melodias inesquecíveis: “Marina, Morena você se pintou”.
Depois vem a Bossa Nova, o Tropicalismo, os ritmos afro-americanos e, nos dias atuais
o brega popularesco. “Você não vale nada/ Mas eu gosto de você”. “O Garçom tá doido/ Botou água na cachaça/ Garçom baitola, garçom baitola (...)”.



6 de setembro de 2017

PRESTES EM NATAL

                                                                                                   Luís Carlos Prestes

Por Franklin Jorge 

Pontual e de uma irrepreensível cortesia, Luís Carlos Prestes recebe-nos a mim e ao escritor Jarbas Martins às 6h30 da manhã, no saguão do hotel Samburá, onde está hospedado, no Centro da cidade.
Recém-saído do banho, ainda exalando um agradável cheiro de sabonete, o cabelo bem cortado, faz-se acompanhar do médico Salomão Gurgel, um norte-rio-grandense que ele conheceu em Moscou. Prestes, homem discreto, parece de alguma forma cansado, talvez, por tanta exposição na mídia que o persegue como se fora um animal pré-histórico. Veste-se com elegância e distinção.
Madrugador desde menino, reporta-se à  exaustiva homenagem que lhe foi prestada na Assembléia Legislativa do Estado, ontem à noite, em sessão que se prolongou demasiadamente além do previsto.
No Brasil, nada funciona, afirma numa voz calma, segura e polida. Até as homenagens excedem os limites da normalidade. Dormi pouco, mas após um banho frio, sinto-me renovado e pronto para responder aos seus questionamentos. Pergunte o que quiser.
Prestes tem 89 anos. De estatura abaixo da média, nem gordo nem magro, conduz a conversa com desenvoltura. Então os senhores são jornalistas. Pois saibam que os jornais e as rádios continuam sistematicamente a censurar minhas palavras. Geralmente, omitem minhas idéias quando não distorcem minhas palavras. Mesmo assim, continuo falando, pois dependo da palavra para ajudar na transformação de uma sociedade estigmatizada pela miséria e instruída pela corrupção. A palavra é a arma de que disponho e estou sempre a usá-la da melhor forma contra os políticos individualistas que oneram o país.
A imprensa é uma organização capitalista e está toda nas mãos da classe dominante. Portanto, não podemos estranhar que colabore para que tudo continue como está. Apesar da abertura, a imprensa continua comprometida com a classe dominante e nada faz para reduzir o quadro de alienação que vigora de Norte a Sul.
Costumo dizer que no Brasil ninguém nasce comunista. Falta-nos politização. O brasileiro não é politizado. Aqui, a ideologia é metida na nossa cabeça quase a marteladas. Nosso maior erro, contudo, é não fazer nada. Há uma cultura de acomodamento que dirige e entrava o país. Submetemo-nos a tudo sem espernear e sem usufruir desse direito legítimo. Não fazemos nenhum gesto passível de desmascarar o poder arbitrário que a tudo corrompe. De todos os brasileiros, o presidente Sarney é o mais submisso. E também o mais duvidoso dos brasileiros.
Nos países civilizados, as forças armadas são instrumentos do Estado. Aqui, ocorre o contrário: o Estado é instrumento das forças armadas. É refém delas.
Desde moço fiz uma opção reiterada pelo ser humano e pela liberdade. Por isso, desde a mais remota juventude – sempre renovada no entusiasmo de uma luta sem fim e sem fronteira -, jamais me curvei a interesses que contrariassem meu idealismo. Sempre me coloquei acima dos limites partidários. Não tenho nem nunca tive uma vida fácil.
Sentado numa poltrona à entrada do restaurante do hotel, Prestes fala torrencialmente, como alguém que tem urgência em comunicar suas experiências. Se eu o conhecesse, diria que está bem humorado. Ele confessa que não esperava que a entrevista fugisse ao ramerrão de praxe. Sempre me perguntam as mesmas coisas, como decorrência desse grande cansaço que mortifica os jornalistas brasileiros. Tenho a impressão de que eles fazem sempre as mesmas perguntas, em todos os lugares, a qualquer pretexto. Natal, de qualquer forma, me surpreende. Porém não posso dizer que conheço Natal. Não vim fazer turismo. São muitas as solicitações e os compromissos que ainda tenho de satisfazer.
O sofrimento é uma grande escola. Como sabe, muito moço, conheci a prisão. Quando descobri a ideologia marxista, vi-me obrigado a exilar-me
Em Santa Fé, na República Argentina, viveu por muitos anos na clandestinidade. Toda a minha vida, desde a mais tenra idade, foi marcada pelo sofrimento. O idealismo custa caro. A você, que é ainda bastante jovem, diria que fique atento a essa realidade: o idealismo custa caro, muito caro. Mas, em geral, só despertamos para esse fato demasiadamente tarde. Porém sem idealismo nada se faz que seja grande. O sacrifício pessoal faz parte do idealismo.
Filho de Antonio Pereira Prestes (1870/1908), e de Leocádia Felizardo Prestes (1874/1943), ficou órfão aos dez anos. Meu pai era engenheiro militar. Foi aluno de Benjamin Constant e sempre simpatizou com o Positivismo comtiano. Vivíamos em Alegrete, no Rio Grande do Sul, uma cidade abafada e insalubre, construída sobre uma grande lage de pedra.
Lá, em Alegrete, minha mãe contraiu tuberculose e mudou-se para Porto Alegre. Meu pai, porém, continuou em Alegrete. Ele tinha a patente de capitão do Exército. Quando morreu, seus próprios colegas de farda roubaram-lhe os pertences. Muito cedo, senti a necessidade de trabalhar.

Eu era o filho mais velho e sempre fui educado entre as mulheres. Morávamos numa casa modesta. Nossos recursos eram limitados. Diante disso, minha mãe passou a costurar para fora e matriculou-me num colégio militar. Fui a contragosto, mas não havia o que fazer. Eu me lembro que passei a chegar cedo ao colégio, para participar do almoço; depois das aulas, permanecia mais tempo na sala de aula, fazendo qualquer coisa, à espera do jantar. Agindo dessa forma eu diminuía as bocas que se alimentavam de um pequeno soldo, que foi tudo o que o meu pai nos deixou.
Minha mãe era uma mulher culta. Ela costumava dizer-me que a juventude era feita para o estudo. Era uma mulher que lia e educou-me na crítica aos militares. Aos dez anos, durante a famosa Campanha Civilista encabeçada por Ruy Barbosa, minha mãe levava-me com as minhas irmãs aos comícios. Aquilo me empolgou. O senhor deve saber que a mulher, quando é combativa, é mais conseqüente do que os homens. Assim era minha mãe. Uma mulher que não se deixou vencer. Dei o seu nome à minha filha.
Emocionado, evoca a grande marcha da “Coluna Prestes” que, sob o seu comando, cruzou o Brasil e passou pelo Rio Grande do Norte. Aqui cruzamos o alto sertão e nos aquartelamos em Luis Gomes, uma aldeia ainda e esquecida dos poderes constituídos. Nossa luta era fundamentalmente dirigida contra o presidente Arthur Bernardes. Era a luta contra a fraude que campeava por toda parte, arruinando o país e promovendo a descrença entre os cidadãos. Lutamos, como idealistas, contra o poder da justiça brasileira que já era muito corrupta naquela época e ignorava soberbamente o direito dos pobres. Lutamos por uma justiça limpa e um Estado livre da corrupção, representada, naquele momento, pelo governo de Arthur Bernardes.
Empolgado com as lembranças de sua luta, o velho cavaleiro da esperança, conforme o definiu o escritor Jorge Amado, Prestes refere-se longamente sobre a origem de tudo, o escândalo provocado pelas cartas, comprovadamente de autoria do presidente, como afirma com ênfase, dirigidas ao seu amigo Raul Soares. Divulgadas pelo jornal “Diário da Manhã”, indignou a opinião pública e o pôs em marcha, à frente de uma coluna, em sua heróica reação. Tantos anos depois, Prestes ainda sabe as cartas de memória e as repete com a indignação de sempre. “(...) Os militares podem ser comprados com outros galões e bordados”, escreveu o presidente Bernardes a Raul Soares.
Fragmento de “O Spleen de Natal” [V. 3-3, inédito]


4 de setembro de 2017

Quando comprávamos discos


Rodrigo Hammer

Emy Som, Vox, Discol, A Modinha, Musi Som estão entre as lojas de discos que a juventude potiguar frequentava na primeira metade da década de 1970. A extinção gradativa e impiedosa dos pontos mais lembrados traz aos saudosistas um gosto de nostalgia que não se limita à simples indisponibilidade dos títulos hoje procurados em versão analógica (o popular “vinil”).
Atrasado e em plena ditadura militar, o Brasil só viera a assimilar o Movimento Hippie – fenômeno deflagrado após o mítico Verão do Amor da Costa Oeste norte-americana em 1967 - entre 1972 e 1974, era em que a música pop no exterior já começava a preparar terreno para a “invasão” disco music sofrida pós-1976, aqui em 1978. Muito rock ‘n’ roll na veia, a exemplo da população de outras capitais, o natalense recebia os lançamentos de selos super-poderosos como Atlantic, CBS, Mercury e PolyGram com a mesma pontualidade que as gravadoras dispensavam a bandas e LPs considerados fundamentais.
Caminhante de um périplo obrigatório pela rota dos pontos mais conceituados, o “rocker” tinha no circuito comercial a única oportunidade para adquirir as novidades em curso, um meio indispensável, já que as raras publicações especializadas não eram suficientes para levar o consumidor a “garimpar” adequadamente o “álbum do momento”.
Localizada na esquina das Ruas Princesa Isabel com General Osório, Cidade Alta, a pequena Emy Som era considerada uma espécie de “templo” dedicado ao rock ‘n’ roll, administrada por gente que entendia do riscado e frequentada por fissurados em hard rock e progressivo. Subindo em direção à rua João Pessoa, também no centro da cidade, a Vox mantinha no estoque um considerável acervo de música, da erudita à popular brasileira, sem esquecer os superstars de antanho. Era também de sob o balcão que saíam os títulos mais interessantes a despeito de um generoso mostruário sempre tomado por diversos lançamentos cobiçados. Sua rival, a bem sortida A Modinha - situada na Princesa Isabel já à altura da Rua Ulisses Caldas - atravessaria períodos conturbados, passando de acanhado quadrante reservado a itens obscuros, à feição de “magazine” que conquistaria o público “metálico” por volta de 1988.
Última representante da era de ouro das lojas de discos em Natal, a Discol é dura na queda: permanece encravada na rua João Pessoa, embora as paredes que dividem espaço com brega generalizado e camisetas de heavy metal pouco remetam ao que o local significou para dezenas de velhos remanescentes do underground potiguar. Citado por dez entre dez rockers veteranos, o proprietário Luís consegue ser modesto. Não está nem aí por ter feito parte de um passado de ídolos cabeludos e bandas revolucionárias que recomendava a quem quer que demonstrasse interesse por algum lançamento nos 1970: de Uriah Heep a Slade, de Sweet a Rolling Stones, cansou de indicar futuros clássicos, formando gerações e gerações de curtidores.
Alternativas na linha da lendária Aratarda ou investidas temporárias de supermercados como Nordestão – que chegaram, sim, a pôr nas gôndolas LPs interessantes – somam-se a outras fugazes, quando muito levadas a cabo por aventureiros de outras regiões. À época saudada com entusiasmo pelos colecionadores de Rock, a portentosa Planet Music foi outra que surgiu na segunda metade da década de 1990, no Natal Shopping, trazendo logo na inauguração um “container” de novidades importadas em CDs. Praticando um preço absurdo, a loja com ares de “lounge” não teve fôlego para manter uma clientela que também dava as caras pelos lados da BiMusic, esta situada num espaço comercial de Petrópolis. Em ambos os casos, o fenômeno da pirataria verificado anos mais tarde, se encarregaria de aniquilar as pretensões mais ambiciosas, sem chance para especuladores.
É irônico que as últimas tentativas de porte representadas por pequenos comerciantes e sebistas cheguem a viver de encomendas ao sabor da febre do “download”. Nesse aspecto, Natal pode se orgulhar de antecipar a vanguarda augurada por visionários que na virada do ano 2000 já previam a substituição da música registrada em meio físico por aquela de origem “virtual”. No lugar do plástico, do papelão e da capa, o minúsculo player de MP3; no lugar das saudosas lojas de discos, o “modem” turbinado, a receber megabytes de informação musical.



          



30 de agosto de 2017

Redinha: os caminhos de preservação da história para além da Antiga Ponte de Igapó

                                                                                                                                Foto: divulgação

Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Parque da Cidade


Redinha II

Nostalgia ventos livres jangadas ao mar
capelinha de Nossa Senhora dos Navegantes
olha a partida, pescadores na madrugada  a navegar
ao longe se distancia da praia, vence o quebra mar
entre o céu e o mar, as ondas levam os homens a navegar!

Nostalgia  saborear uma ginga com tapioca
no mercado da Redinha na beira  mar
longe do outro lado do rio, ver a Fortaleza dos Reis Magos,
e a Ponte Newton Navarro, o antigo e o moderno a dialogar.

Ginga com tapioca de seu Januário, tradição se fez
de Dalila a dona Ivanize, põe azeite de dendê,
rala coco, salga o peixe, como é bom saborear
ginga com tapioca na beira do mar.

Nostalgia festa do caju , procissão, barcos ao mar
clube de pedras domingueiras a bailar,
Os Cão na lama se fizeram
brincantes invadem a Redinha velha
folia de Momo até o Baiacu na vara passar.

Nostalgia Redinha do rio Doce, da África
à Redinha Nova, carnavais e verões
marchinhas e as bandas de metais soprando ritmos
brasilidade pulsante, nativos e veranistas
amantes da Redinha dos meus amores.
(Luciano Capistrano)

                Minha adolescência, e, início da idade adulta, foi marcada por idas a praia da Redinha, morador do Conjunto Santa Catarina, desde sempre fui um frequentador assíduo, cheguei a pular no trapiche, guardo boas lembranças da terra de Nossa Senhora dos Navegantes. Sim, e, ainda morei naquela praia da saborosa “GINGA COM TAPIOCA”.
            A praia da Redinha tem, para o povo católico, a proteção de Nossa  Senhora dos Navegantes, padroeira e protetora dos pescadores. Em 1925, foi erguida olhando o mar, a Capelinha, no alto observa a saída e chegada dos pescadores.
            A Redinha da ginga com tapioca é uma tradição que vem de longe, desde as décadas de 1950 / 1960, com o senhor Geraldo Januário, que era marchante de peixe e fez essa iguaria, assim, passando para a família a receita até as gerações atuais:
Para começar a entendê-la, nada melhor do que prepará-la e saboreá-la. Tratar, temperar os peixes com sal, espetá-los em palitos de coqueiros, colocar um pouco de farinha de mandioca para grudar e fritá-lo em azeite de dendê. Para a tapioca, peneirar a goma, colocar sal, ralar o coco, misturá-lo à goma, colocar em frigideira, e por fim colocar o peixe dentro da tapioca, como um sanduíche. Este é o modo de preparo da ginga com tapioca, desde sua origem, e se perpetuar até hoje, conforme nos contou D. Ivanize em entrevista. (DANTAS, Rebekka Fernandes. Ginga com tapioca: de Dalila a Ivanize, das origens à atualidade. Natal: Sebo Vermelho, 2015, p. 33)

            A Redinha, tem uma ocupação que remonta ao século XVII, praia da região norte de Natal, limita-se com os bairros Potengi, Salinas e Pajuçara, e, também com o município de Extremoz. Tem ainda suas terras banhadas pelas águas do rio Doce, Potengi e o mar. Com uma população de aproximadamente 20 mil habitantes, a Redinha é um lugar de muita beleza.

Redinha

Redinha dos mares
Da capelinha
Igrejinha de pedra
Rogai Nossa Senhora
Pescadores Navegantes saem
As jangadas ao mar
Vento sopra a vela
Faz embarcação navegar
Vencer as ondas
Transpor o quebra-mar
Cotidiano de sol
Sobreviventes jogam a rede
Trazem peixes do mar
Festa do caju
Redinha clube
Saúdam os pescadores
Trabalhadores do mar
Nos dias de folga
Saborear
Ginga com tapioca
No mercado
Na barraca de dona Zefinha
Ao abrir o baú das minhas memórias
Encontro a Redinha de tantas
Histórias.
(Luciano Capistrano)

            Ao finalizar, este “curto” artigo, chamo a atenção, amigo velho, para a importância da preservação da memória deste antigo bairro Da urbe: A Redinha, como diz Câmara Cascudo, em uma de suas Acta Diurna, tem registro no mapa de Joanes de Laet, de 1633, onde já é indicado, no referido mapa, a localização de um povoado de pescadores. Este é o desafio, fazer os caminhos de preservação da história para além da Antiga Ponte de Igapó.