26 de maio de 2017

JOAQUIM LUCAS DA COSTA, DO TEATRO DA VIDA PARA A ESCOLA



 Carlos Frederico de O. L. da Câmara
                                                              carlosastral@hotmail.com

          O comerciante e jornalista, Joaquim Lucas da Costa (1886/1925), poderia ter sido mais um desses profissionais dessa atividade a ter sido despachado do cenário da vida intelectual de Natal, principalmente nos primeiros anos do século XX e meados da década de 20, inglòriamente, sem deixar marcado o rastro da sua presença. Mas, graças ao seu talento artístico, terminou ganhando uma fatia de glória póstuma porque as suas atividades extra-comerciais, o jornalismo, o teatro, a crônica e a poesia, garantiram sua redenção pós-morte.
       E sua história até ganharia outra dimensão lítero-humanistica, caso não estivesse sido atropelado, prematuramente, pela implacabilidade que abrevia a nossa trajetória existencial. J. Lucas, como se assinava nas transações comerciais, anunciou no jornal “ARepública”, “A Imprensa”, “Gazeta doComércio” e “A Capital”, sobre sua empresa “Armazém de Cereais,Consignações, Comissões e Conta Própria”, desde (1908/1924); J. Lucas vende redes do Ceará, por preços vantajosos. Representante da fábrica Iracema de Mello e Nogueira. Mantém depósito de madeiras do Pará – de todas as qualidades. Vende por preços reduzidos. Rua Aureliano Medeiros, n.º11; outro anúncio: J. Lucas vende baleeira nova, por preço baratíssimo, para o serviço de porto.  Mais outro: J. Lucas tem para vender, pelos preços antigos.
     Sacaria de estopa para açúcar em 60 e 75 quilos. Em uma nota da empresa Tração, Força e Luz Elétrica de Natal, referente á taxa de cobrança de luz (como aviso aos contribuintes da Ribeira), em (1917), no jornal “A República”, a respeito de um prédio, na rua desembargador Joaquim Ferreira Chaves. J. Lucas também possuiu terrenos na antiga Rua do Comércio (hoje Rua Chile), no bairro da Ribeira. Também assinando como Joaquim Lucas, o combativo articulista do jornal “A Imprensa”,(1917) e do “Jornal daNoite” (1925), órgão independente e noticioso, consagrado aos interesses do povo. Também publicou poemas, caso do poema “Revés da Sorte”, saído no jornal A Capital”, edição de 17 de janeiro de (1909); ou ainda Lucas Costa, dos poemas publicados no jornal “ARepública” e do seu único livro DISFARÇADOS...1924, com edição do livreiro Fortunato Aranha. Capa e desenhos, graças à gentileza do inteligente artista piauiense Mário de Carvalho que, presentemente nesta Capital, de boa vontade ilustrou com belos quadros o simples trabalho que apresentamos. Quando um articulista do jornal“A República”, escreveu na edição de 24 de outubro de (1924), sobre o fato de o autor além de ter se dedicado a atividade comercial, “mesmo assim se revelou um espírito esforçado e inteligente ao abordar assuntos literários”.
      Colaborou ainda, na condição de redator, em “O Teatro”, nos números um e dois (26 de fevereiro de1916 e três de maio de 1918). Desse grupo faziam parte Félix Fidélis (pseudônimo de Jorge Fernandes), Riachão, Lívia Maggioly, Deolindo Lima, João Estevão e Cora Maggioly. Revista do Órgão do “O Ginásio Dramático”, publicação indeterminada. Não tivemos acesso a essa revista. Joaquim Lucas escreveu um original e bem elaborado mini-conto intitulado, “OOURO...”, publicado em 1917 na revista Rapa-Coco, para as festas sanjuanêscas.
       Joaquim Lucas da Costa, participou como contra-regra, conforme se lê no jornal “O Parafuso” de 17 de dezembro de 1916. O “GinásioDramático”, Instituição de amadores organizada em Natal em 1914, funcionou toda a sua vida no Teatro Carlos Gomes, (hoje Teatro Alberto Maranhão), por gentileza dos governadores que independente de qualquer contrato e mediante insignificante caução, ofereciam o teatro do Estado para os ensaios e representações da referida sociedade. O proveitoso grêmio natalense, posto que não contasse com nenhuma subvenção pública, e fosse até visto com certo indiferentismo por parte de alguns conterrâneos refratários, se manteve por muitos anos com os seus próprios recursos, impondo-se também a elevada consideração, já pelos seus proveitosos fins, já pela grande harmonia de vistas existente entre os seus associados.
      De admirar era também, que “O Ginásio Dramático” sendo uma sociedade tão bem unificada, não dispusesse de leis para o seu regimento interno. Os seus estatutos não passavam de meras decisões da diretoria em exercício, que sempre agia tendo em vista o desdobramento do valioso núcleo de amadores. Os sócios componentes do Ginásio dividiam-se em três classes tendo cada uma, funções distintas. Havia uma classe de sócios protetores que nos momentos precisos auxiliava pecuniariamente o grêmio: a segunda que era o corpo de amadores, representava por assim dizer, a vida ativa da sociedade: a terceira, de maior responsabilidade, era constituída pelos conterrâneos que tomavam o compromisso da elaboração literária.
     As peças levadas à cena pelos inteligentes amadores do Ginásio eram, em sua maioria, da criação dos patrícios associados, que as escreviam, adaptando à genérica intuição dos amadores. Desta arte, foi que a brilhante sociedade de que ora nos ocupamos, ofereceu em Natal momentos de verdadeiro encanto aos espíritos da sociedade natalense que souberam receber as maravilhosas emoções da arte imitativa. Este grêmio marcou época na vida da cidade, com muitas revistas, vaudevilles, comédias, burlêtas e dramas, escritas pelo pessoal de casa e montadas no “TeatroCarlosGomes”, pelos moços ginasianos.
    Foram também magnificamente representadas por estes, peças de consagrados escritores nacionais, cujo desempenho, causa viva surpresa aos legítimos conhecedores da arte. “O Ginásio Dramático”, que nos seus últimos anos se achava bem pujante e conceituado.                    Contava, como seus elementos constitutivos, os seguintes cavalheiros: drs. Sebastião Fernandes, Luiz Potiguar, major José Pinto, prof. Ivo Filho, major Ezequiel, tenentes Deolindo Lima e Aristóteles Costa, Virgilio Trindade, Amaro Andrade, Sandoval Wanderley, Joaquim Lucas, Abelardo Bezerra (1) Cícero Vieira, Jayme Wanderley, Fábio Zambrotti, Mario Mendes, Carlos Siqueira, João Estevam, José Callafange, José Callazans, Pretextato Bezerra, Pedro Odilon e João Leite. O GinásioDramático,viajou pelas cidades mais próximas da capital, como: Macaíba, Ceará-Mirim, Canguaretama.
      Dentro da sua produção cultural, Joaquim Lucas destaca-se com o texto O Homem, publicado no jornal A Imprensa, setembro de (1917), aborda, filosòficamente, nossa espécie, com observações dessa profundidade, nas quais se observa, na escrita, uma espécie de transe mediúnico, (registre-se: Lucas da Costa era um dos espiritualistas da cidade): “Homem, não te envaideças tanto! Há em tua alma, cores que deslumbram, mas estas não são mais que as iriações dos páramos, o brilho fictício dos fulgores ou as variedades caleidoscópias. Tu és apenas um instrumento transmissor das maravilhas de todos os tempos, sabes? O panteísmo é a verdadeira ciência; somente Deus é grande...”
Seu envolvimento com a Maçonaria é um capítulo especial e importante na sua vida, ele dedicou quinze anos à loja maçônica “FILHOS DA FÉOR DE NATAL DE NATAL. Destacando-se como brilhante orador, além de exercer os cargos de secretário e 1º vigilante. Grau (18). Fez parte também como orador da SOCIEDADE IRMANDADE DOS PASSOS e da SOCIEDADE GARANTIA DO POVO.
Marcando sua presença na vida política da capital Natal, Joaquim Lucas da Costa se registrou entre os (100) nomes de uma lista de candidatos a deputados e suplentes, para a renovação da 2ª turma a esta zona. Pelo edital da JuntaComercialdeNatal, foram convidados, naquela ocasião, os comerciantes-eleitores, em 26 de dezembro de (1923), publicado no jornal “A República”.
       O respeitado poeta e crítico literário Anchieta Fernandes traduziu e resumiu a importância de Joaquim Lucas Costa no ofício lítero-jornalístico: “Um genial praticante da ironia e do humorismo desvelador das máscaras sociais. Pioneiro na documentação da vida cultural de Natal”. Mais: “Temos em Lucas da Costa, no livro DISFARÇADOS...1924,a prova de quanto o bom escritor pode ultrapassar a sua época, na verdade criativa, que sabe usar para captar situações e comportamentos humanos”. O ilustre jornalista e grande escritor premiado Franklin Jorge, afirma em seu texto publicado no jornal cultural O Rio Grande, “LUCAS DA COSTA, CRONISTA POLÍTICO QUE NATAL ESQUECEU”; partidário do Capitão José da Penha, adversário do sistema Maranhão, Lucas da Costa utiliza recursos da ficção para decompor os bastidores da política e o caráter dos personagens que estão no comando da ação ou encarnam o papel de satélites dos poderosos de plantão. Observa; “o jornalismo incendiava a opinião pública no Rio Grande do Norte e o Governador Alberto Maranhão contratou jornalistas pernambucanos para defenderem os seus interesses contra o avanço do adversário, antenado com a insatisfação popular.
     Dotado de uma cultura que o distinguia dos seus colegas de redação, Lucas da Costa viu na multiplicação dos jornais, uma forma de corrupção aos interesses políticos antidemocráticos. A prova disto: a nomeação do jornalista pernambucano Oscar Brandão, para a função de delegado de polícia”.
           Retratando o cotidiano, as vicissitudes, os desmandos políticos oligárquicos do seu tempo, Lucas da Costa pormenorizou e reconstituiu um amplo e rico painel da vida e da sociedade natalense. Essa crítica social dos costumes de Natal foi enriquecida, especialmente quando, em um dos capítulos de DISFARÇADOS...1924, o escritor abordou a célebre e quase sangrenta campanha política da sucessão governamental em (1913), que desassossegou o Estado, com os inflamados discursos “salvacionistas” do capitão José da Penha: “... Muita gente já tinha uma espécie de fanatismo pelo capitão Penha, e quase diariamente chegava gente do interior à capital para vê-lo e ouvi-lo falar desassombradamente sobre os desmandos políticos da terra, bradando contra o continuísmo da oligarquia Maranhão, representada pela candidatura vitoriosa do desembargador Joaquim FerreiraChaves, que voltava ao governo do Rio Grande do Norte, agora com um gigante mandato de sete anos.
        Lucas da Costa despediu-se da vida, quando já gozava da popularidade alcançada com seu livro, comenta o jornalista Carlos Morais”. DISFARÇADOS... editado em outubro de(1924), bem vendido nas duas principais vitrines de venda de livros da cidade, a livraria Cosmopolita,  do livreiro e editor Fortunato Aranha e  agência Pernambucana do livreiro Luís Romão, ambos situados na avenida Dr. Augusto Tavares de Lyra, na pitoresca Ribeira. Bairro, aliás, que Lucas da Costa amava, e viveu boa parte das suas horas, no comércio, no jornalismo, no teatro e na condição de morador. No prefácio do livro NATAL DO MEU TEMPO,Crônica da Cidadedo Natal, de João Amorim Guimarães, na 2ª edição (1999), com organização, introdução e notas do Dr. e professor do Departamento de Letras da (UFRN), Humberto Hermenegildo de Araújo. Ele faz este comentário: “É necessário observar, no entanto, que NATAL DO MEU TEMPO, não é uma manifestação isolada de documentação da vida cultural da cidade do Natal. No gênero, destacam-se os títulos HISTÓRIAS QUE O TEMPO LEVA... (1924, Luís da Câmara Cascudo) e DISFARÇADOS..., 1924 (Joaquim Lucas da Costa), ambos publicados na década de 20. Após estes dois trabalhos pioneiros, muitas crônicas sobre o processo de modernização da cidade, foram publicados na imprensa natalense, assunto em torno do qual relacionam todos os outros”.
            Este livro, portanto, reeditado após 73 anos, com o apoio do venerando Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Nortee da Fundação Cultural “PadreJoão Maria”. DISFARÇADOS...1924, é ao mesmo tempo uma obra de referência e um delicioso painel dos costumes políticos e sociais de uma Natal dorminhoquenta e provinciana, transformada em presa da oligarquia constituída ao longo da luta pela extinção da escravidão e proclamação da República que desde o seu nascimento mostrou-se uma boa mãe para aqueles que detém o poder em nome do povo, deve ser lido e comentado pelos seus enfoques diversos, livre das exigências gramaticais, cujo fato, porém, não ofusca, jamais, os méritos do autor. 
           E foi no bairro da Ribeira, na Rua Gen. Glicério, por trás da Igreja do Bom Jesus das Dores, que o prestimoso cavalheiro, Sr. Joaquim Lucas da Costa, se despedia da vida, às 6 horas da manhã de sábado, proveniente de uma úlcera perfurante no estômago, em 25 de julho de 1925, com 39 anos de idade. A sua vida e sua importante trajetória existencial foram analisadas e avaliadas, lhe garantindo um retrato fiel do seu comprovado e reconhecido valor. O comerciante, escritor e jornalista Joaquim Lucas da Costa consorciou-se com a Sra. Maria Pereira da Costa e desta união constituíram três filhos: Giordano Lucas da Costa, Renato Lucas da Costa e Dinorá Lucas da Costa.




Lucas da Costa

22 de maio de 2017

FOTO DA PEDRA DO CRUZEIRO EM CURRAIS NOVOS


Eugênio Oliveira

Em Currais Novos,  aproveitei e fui
a Pedra do Cruzeiro,  fiz algumas imagens e de quebra contemplei um lindo pôr do Sol.




19 de maio de 2017

AH, AS INQUIETUDES!...


Bené Chaves

                 Gupiara já vivia seu clima de quase insuflação, sendo constantemente abordada para fazerem dela um grande empório. Era o inevitável progresso às portas de uma outrora e pacata cidade, batendo com suficiente força para arrombar suas dependências. Mesmo depois de uma obstinada e perdida luta contra tal conjetura.
                E sabia eu, lógico, que nada poderia deter aquelas mudanças, pois mais cedo ou mais tarde viveria e vivenciaria os acontecimentos. Seria outra batalha ineficaz, desta feita, no âmbito social. Insucessos que só viriam em detrimento de um povo alheio ao andamento do que se sucedia. Era um prognóstico inaceitável. E outra ilusão!
               Contudo, diante dos problemas que começavam a surgir, percebi novos e nobres horizontes, facilitado pela percepção que tinha dos fatos acontecidos ou a ocorrer. Passei anos dedicando-me também a tentar e desejando concluir algum curso superior, era evidente que teria uma vida inteira talvez repleta de inquietações e possíveis hostilidades. Isto é: se nenhum acaso desagradável viesse a interromper aquele trajeto iniciado.
               Namorei pouco ou quase nada neste ínterim, sempre com o cuidado de não ser molestado nas supostas e acho que falsas abordagens. As meninas já estavam bem crescidinhas e muito mais sabidinhas. E, então, as rivalidades ocultas teriam melhores chances de se manifestarem. Sabendo-se que dentro delas mesmas existiam tais desejos nas disputas internas ou externas entre si.
              E em intervalos quase regulares parece que eu não tomava jeito de maneira alguma (ah, as mulheres!). Porque terminei me enrabichando por uma garota chamada Rosilda, detentora, esta sim, de um porte físico que me fez estremecer. Ela tinha uns dezenove anos, por aí ... Aliás, sempre apreciei uma garota com esta suculência. E quem não a apreciaria?
             Quando ia para a praia com a mesma ela colocava um biquíni amarelo que deixava transparecer o belo formato de seu corpo, principalmente se aquela loiríssima saísse de dentro do mar com a peça grudada e visualizando detalhes sensuais, os pêlos do púbis a aparecer como um triângulo apetitoso para minha libido.
             Bom mesmo seria, então, quando a gente adentrava naquele ainda límpido oceano. Ao nadarmos alguns metros e com a água já acima da cintura, eu deixava meu corpo e o dela flutuarem na sutileza das ondas. Ali, na imensidão, a esfriar e ao mesmo tempo esquentar nossas vontades, fazíamos o que fosse preciso. E, logo a seguir, depois de um bom relaxamento, saía eu e Rosilda satisfeitos do intento realizado, o riso a transbordar de contentamento em ambas as faces.
            Sei não... Acho que ainda não tinha praticado um ato que atestasse um sublime prazer como aquele dentro das águas mansas de uma das praias nos arredores de Gupiara. Entramos em uma catarse e chegamos ao êxtase. 

            Era, certamente, uma sobrecarga de exaltação que na idade que eu estava me levou a uma infinda sensação de delírio. E claro que da Rosilda também. Dir-se-ia que teria sido um terno e quase eterno vôo dentro do mar.


17 de maio de 2017

MANUEL FERREIRA NOBRE

                                                                         Manuel Ferreira Nobre

Tolstoi aconselhou, quer buscar o universal escreve sobre tua aldeia. Foi que fez Manuel Ferreira Nobre, nosso primeiro historiador, nascido na cidade do Natal a 21 de março de 1824, filho do Ten. Manuel Ferreira Nobre e D. Inácia de Almeida Nobre. Foi o primeiro norte-rio-grandense a publicar trabalho sobre a província do Rio Grande.  Pesquisando sua biografia encontrei várias datas de seu falecimento. 1896, 1902. Entretanto no Jornal a República está o registro correto com a data de falecimento num ofício do Governador para o Inspetor do Tesouro: “para os devidos fins, comunico-vos que em data de 15 de agosto de 1897 faleceu na Vila de Paparí, hoje Nísia Floresta, Manuel Ferreira Nobre”. Viveu o I e II império onde nada ou quase nada acontecia na província, daí sua preocupação com a limitada vida provincial de então. Pesquisou os vários direcionamentos da vida local, deixando ricas informações sobre o então desconhecido Estado.
         O Rio Grande do Norte do século XIX era pobre em tudo. No entanto a maior pobreza era a intelectual, que ainda hoje nos persegue. Daí, Ferreira Nobre haver feito a diferença. Inteligente, autodidata, boa instrução intelectual numa época com elevado nível de analfabetismo.
         O pesquisador Manuel Rodrigues de Melo presta este enfático depoimento: “Manuel Ferreira Nobre foi, sobretudo um infatigável burocrata; mas no curso de sua vida foi também político, militar, homeopata, enfermeiro, literato, tabelião, advogado provisionado e ainda tendo tempo para apresentar-se como voluntário para a guerra do Paraguai, tendo sido excluído por falta de condições físicas”.
         Para se ter idéia da importância de Ferreira Nobre basta citar sua nomeação para o Cargo de Oficial Maior da Secretaria da Assembléia Provincial, apenas para orientar os legisladores a legislar com conhecimento de causa.
         Numa província sem estradas, enfrentado as mais diversas dificuldades, coletou informações, que reunidas, serviram para constituir o livro “Breve Notícias sobre a Província do Rio Grande do Norte”, cuja primeira edição aconteceu em 1877 pelo Estado do Espírito Santo, a segunda quase cem anos depois, 1971, graças a sensibilidade e entusiasmo do saudoso amigo e confrade Enélio Petrovich presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
        Breve Notícia é a primeira tentativa que se consolidou de uma história do Rio Grande do Norte, que antecedeu os trabalhos mais completo de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986),  Tavares de Lyra, Tarcísio Medeiros e outros mais.
        Historiadores, pesquisadores, curiosos, ao manusear este trabalho observarão que o autor reuniu considerável volume de informações dispersas na província, sistematizou-as, mas sem qualquer aprofundamento, daí o modesto título de ‘Breve Notícias sobre a província do Rio Grande do Norte”. Uma obra de interesse histórico que ainda  permanece muito importante para os dias atuais.
        Pelo conteúdo do livro é fácil imaginar que Ferreira Nobre era um intelectual sério, criterioso, de estilo preciso, lúcido, pragmático, preocupado em servir a província. Modesto, sem os lampejos das fogueiras das vaidades rotulou seu livro de “ligeiro ensaio” deixando claro que sua meta era fazer qualquer coisa e o fez, numa época em que pouco se sabia da província num raio de 50 quilômetros quadrados. Guardadas as devidas proporções este documento informativo compara-se á Corogafia Brasílica de Ayres de Casal ou a sumária História do Brasil de Frei Vicente do Salvador.
      Precavido justifica sua iniciativa: “não escrevo a história preciosa e interessante do Rio grande do Norte: publico apenas tradições e pequenas reminiscências, que são sempre agradáveis ao espírito que se alimenta em pesquisar as coisas do meu torrão, por mais estéreis que pareçam”.
Prof. Severino Vicente
Historiador e Folclorista
Presidente da Comissão Nacional de Folclore



10 de maio de 2017

Deífilo Gurgel: o garimpeiro das sombras

                                                                                                                 

 

                                                                                                    Deífilo Gurgel - foto divulgação

Conheci o mestre Deífilo Gurgel na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, fui seu aluno na disciplina de Folclore Brasileiro. Depois nos reencontramos na Fundação José Augusto, à época ele exercendo o cargo de Diretor de Promoções Culturais. Não foi difícil para o jovem estudante do curso de História acompanhar a dinâmica cultural do grande mestre do folclore potiguar, pois como seu aluno, demonstrei sensibilidade pelas coisas que o povo faz, pensa, sente, realiza, nos mais diferenciados contextos sociais. Antes, já havia conhecido o mestre Luís da Câmara Cascudo, sem entender sua grandeza e importância, nem muito menos sua vasta obra, um legado insuperável que o Rio Grande do Norte precisa conhecer no mínimo as mais importantes, que vai de Vaqueiros e Cantadores a História da Alimentação no Brasil. Depois, conheci Veríssimo de Melo com seu Folclore Infantil, livros e separatas que chega a mais de setenta títulos, sendo inúmeros outros ensaios e artigos publicados em revistas nacionais e estrangeiras.
Preciso deixar explicitado que não vou falar de Deífilo, o poeta, um dos mais importantes do Rio Grande do Norte. Ouvi em várias oportunidades o saudoso amigo Gilberto Avelino, outro consagrado poeta de quem tive a felicidade de gozar do clube de seus restritos amigos a seguinte expressão: “Prof. Severino, Deífilo Gurgel é um dos maiores sonetistas do Brasil”. Como ouvi também do próprio Deífilo, em nossas longas conversas no alpendre do casarão do Tirol, cuja temática não poderia ser outra senão o folclore potiguar: “Severino amigo, comecei minha vida intelectual escrevendo poemas e sonetos, mas, hoje, me considero muito mais folclorista do que poeta,  o folclore é minha vida, minha paixão, meu encanto. Por isto lhe peço nunca se afaste do folclore, tenho lido seus artigos no Jornal de Hoje, com algumas exceções, estão muito teóricos, baixe a bola, sente os pés no Rio Grande do Norte, que eu já estou muito mais pra lá do que pra cá”. Era o corretivo do velho e grande amigo que dedicou boa parte de sua vida pesquisando, divulgando, escrevendo, defendendo a rica e bela Cultura Popular do Rio Grande do Norte, encanto de Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade.
Lembro-me, oxalá se me lembro, de nossas viagens, foram muitas. Prancheta, máquina fotográfica, o motorista Paulo Andreola e o fotógrafo Ubaldo, eram viagens de alegria, encantos e descontração. Nos anos 80, não existia telefone celular, qualquer comunicação tinha que ser nos postos da velha Telern, ao chegar à primeira cidade, antes de qualquer contato ia direto para o posto da Telern telefonar para D. Zoraide o grande amor de sua vida: “Zozó, cheguei” e citava no nome da cidade que estava. Ao terminar se dirigia pra e mim e dizia: “não vai telefonar pra sua mulher não?” – E eu: não. “Você é um irresponsável, viaja e não tem a delicadeza de dizer a mulher onde está, que horas chega. Coitada dela, também, já deve está acostumada com o tipo que tem”. São muitos os fatos pitorescos de nossas viagens em pesquisas pelas estradas, caminhos e veredas potiguares, impossível citar todas neste reduzido espaço. Vou contar mais duas: a idade avançando e com problemas de saúde e seguindo recomendações médicas, passei a viajar sem ele, sentia sua falta, no entanto, quando sabia de alguma viajem minha sem convida-lo, o telefone tocava, Zeneide atendia e dizia: é Deífilo. – Pelo amor de Deus, agora vou escutar tudo, tentava convence-lo da responsabilidade de que pesava sobre meus ombros, pois poderiam entender que era insistência minha. Não o convenci e fui conversar com D. Zoraide, ela me explicou que ele tomava muitos remédios, tinha horário de alimentação e tudo mais. E agora D. Zoraide que fazer? Estou com viagem marcada para o litoral sul, ela respondeu: está certo ele vai, mas você vai ter todo cuidado com ele, na subida do carro, na descida, onde tiver batente e tudo mais, um rosário de recomendações a mim e ao motorista. Vejam o que aconteceu. Ao chegarmos à Canguaretama fomos direto para o mercado público conversar com mestre Zé Dinar, do fandango. Caia uma chuvinha fina, cuidados redobrados, o motorista disse pode deixar tomo conta dele, quando segurava no braço ele, não aceitava e dizia: “João, amigo, estou muito bem, não vá pela conversa de Zoraide e Severino não, olhe aqui” – e começava a fazer exercício com as pernas e os braços. Nesses cuidados todos com ele, eu que ia caindo na calçada do mercado, o motorista me segurou, ele também pegou no meu braço e disse, quando chegar em casa vou dizer: “taí Zoraide o homem que você recomendou pra cuidar de mim, se  não fosse eu e João tinha se lascado de uma queda na calçada do mercado de Canguaretama”. Ao chegar em casa já foi logo contando, apontando para mim e rindo como uma criança: “taí Zoraide o homem que ia cuidar de D.G.” – e repetiu o acontecido. 
No I Seminário de Literatura do Povo, na UFRN, organizado por seu irmão Tarcísio Gurgel, começou a falar de suas pesquisas, apresentando uma das suas maiores descobertas, a romanceira Militana Salustino do Nascimento, da cidade de São Gonçalo do Amarante saiu-se com esta: “o povo diz que todo folclorista tem que fumar e beber cachaça, eu nunca tomei um gole de cachaça e estou ai andando pelo mundo fazendo minhas pesquisas”. Lá da plateia eu gritei. – E tempo, com oito filhos para cuidar. Ele olhou, olhou. - E eu morrendo rir. Ele então disse: “só podia ser você cabra sem vergonha” – e rindo também continuo a palestra.

Severino Vicente

Presidente da Comissão Nacional de Folclore