29 de setembro de 2016

O dia 30 somos nós


Minha mãe é a Caridade,
Minha esposa a Liberdade,
O DIA TRINTA – sou eu!

Parafraseando esta expressão dos versos finais do poema “30 de Setembro”, de Paulo de Albuquerque, poderíamos dizer que a comemoração do centenário do 30 de setembro de 1883 ultrapassa a fronteira do justo regozijo mossoroense, para se definir como a data principal da Abolição em terras norte-rio-grandenses. Pois se a Lei Áurea assinada pela Princesa Isabel (Lei 3.353, de 13 de maio de 1888) foi que tornou possível a abolição oficial da escravatura no Estado (segundo Câmara Cascudo em “História da Cidade do Natal” – “tornou livres, em toda a Província do Rio Grande do Norte, a 482 escravos”), no entanto Mossoró abriu o caminho libertador em 1883, seguida por Açu em 1885 e por Caraúbas em 1887.
Assim, o 30 de setembro somos todos nós, norte-rio-grandenses que defendemos e lutamos pela liberdade, e que naquele episódio marco da cidade Princesa da Zona Oeste nos fizemos representar através de alguns abolicionistas não naturais de Mossoró (dentre outros, Romualdo Lopes Galvão, de Triunfo; Almino Afonso, de Patu; Aderaldo Zózimo de Freitas, de Caraúbas), que, juntando-se a mossoroenses, cearenses e a alguns estrangeiros com amor à causa cívica e humana da Sociedade Libertadora Mossoroense tiraram de vez a algemas ao elemento servil, com uma vibração e um entusiasmos até então inéditos em toda a história do nosso Estado.
A SECA: UM IMPULSO
Por incrível que possa parecer, a seca foi um dos motivos impulsionadores do acontecimento. Este fenômeno climático, que é registrado desde o ano do descobrimento do Brasil por Pedro Alvares Cabral, e que se repete, quase regularmente, em ciclos de 11 anos, atingiu cores das mais trágicas durante os anos 1877, 1878, 1879. Levas e levas de retirantes partiam pelas estradas poeirentas (ainda não asfaltadas) em demanda das capitais, onde os navios nos portos os esperavam para os conduzirem à Amazônia ou ao sul do país. Rui Facó descreve o quadro em seu livro “Cangaceiros e Fanáticos”: “Os nordestinos emigravam seminus, descalços, famintos”. Famílias inteiras se desgarravam, separavam-se impiedosamente pais e filhos, marido e mulher.
Muitas destas separações eram consequência da venda de escravos, pois os fazendeiros viam-se na contingência de vendê-los aos senhores do sul, já por causa da difícil situação da agricultura que tornavainútil a mão de obra escrava, já porque tinham de com a venda dos escravos saldarem os débitos contraídos. A visão do sofrimento de inúmeros escravos partindo para o sul (onde os senhores eram por vezes mais cruéis), separando-se dos seus familiares; isso juntando-se à constatação prática de que o sistema econômico baseado na mão de obra escrava estava falindo despertou em Mossoró as elites comerciais, intelectuais e políticas para o gesto pioneiro.
É Walter Wanderley quem o afirma num dos capítulos do livro biográfico sobre “Paulo de Albuquerque, o Poeta da Abolição”: “Aquela situação advinda da seca de 1877, que se prolongou até meados de 1880, foi a pedra de toque para que se desse início ao movimento de libertação dos escravos em Mossoró. Ricos e pobres, especialmente os escravos, sofreram na carne o drama que tanto devastara o Nordeste. Chegavam a Mossoró, vindos de outras plagas, os senhores donos de escravos fugidos que eram vendidos a outros senhores. Estava, assim iniciado esse comércio que desencadearia reações as mais justas da consciência livre dos mossoroenses”.
IDEAIS MAÇÔNICOS
A conjuntura econômica que indicava o caminho à Abolição, foi auxiliada em Mossoró pelos ideais sociais da Maçonaria. Em 1882, os primeiros escravos alforriados na cidade (Herculana e Luiza), o foram com a verba “fundo de emancipação” (criada pelo Gabinete do Visconde do Rio Branco) e com donativos de membros da Loja Maçônica “24 de junho”, sociedade pioneira em Mossoró e que fora fundada a 24 de junho de 1873.
No “Manual Geral da Maçonaria”, esta é assim definida: “Maçonaria é a atividade de homens estreitamente ligados que, mediante o emprego de imagens simbólicas, e formas emprestadas na sua maioria ao ofício de pedreiro e à arquitetura, trabalham para o bem da humanidade procuram nobilitar-se a si e aos outros, moralmente, para assim atingirem uma comunhão moral dos indivíduos idêntica à que eles já formam uns com os outros, embora em pequena escala”.
É claro que, de acordo com estes princípios, a Maçonaria, que na América tivera desde o início uma atuação muito diferente das suas congêneres europeias (na Europa, os maçons tinha principalmente o objetivo de fazer propaganda anti-religiosa;na América, suas atividades foram principalmente políticas, influenciando bastante na libertação dos países do Continente da tutela europeia, mormente no Brasil, onde a Independência foi praticamente uma vitória da Maçonaria, pois D. Pedro I e alguns membros do seu ministério eram maçons, sendo o nosso primeiro Imperador o Grão-Mestre da Loja do Grande Oriente brasileiro), poderia se interessar em entrar na luta pela Abolição da Escravatura. Daí que foi no recinto da Loja Maçônica “24 de junho” (aliás, é bom registrar que o dia 24 de junho é importantíssimo nos anais da Maçonaria, pois uma tradição indica que a primeira sociedade maçônica foi fundada a 24 de junho de 1717) que se fundou, a 6 de janeiro de 1883, a Sociedade Libertadora Mossoroense, idealizada por Romualdo Lopes Galvão e tendo como primeiro Presidente o cearense Joaquim Bezerra da Costa Mendes.
O trabalho da Libertadora começou, fazendo propaganda da idéia abolicionista, auxiliado pelos sermões do vigário da paróquia de Santa Luzia, padre Antônio Joaquim Rodrigues, pedindo aos paroquianos participarem da causa comum. Nestor Lima escreveu: “Em diferentes etapas foi-se concretizando o ideal libertário. Os grandes dias de festa nacional ou datas queridas à cidade e às famílias eram solenizados com sessões magnas da Libertadora, para alforriar cativos”. Na época, foi também criado um clube de ex-escravos, o Clube dos Espártacus (homenagem no nome a um trácio que liderou vitoriosamente uma revolta de escravos e gladiadores na Roma dos Césares), que abrigava escravos fugidos. Cenas emocionantes foram presenciadas por Mossoró naqueles dias, como o major Romão Filgueira entrando na Câmara Municipal de braços dados a uma escrava recém-liberta.
ALMINO AFONSO
Fora marcado o dia 30 de setembro de 1883 para a proclamação oficial, em sessão solene, da libertação dos escravos em Mossoró. Com o intuito de representar na solenidade 14 entidades abolicionistas do Ceará chegou a Mossoró, a 28 de setembro (data bastante significativa na história do abolicionismo brasileiro, pois a 28 de setembro de 1871 a Lei do Ventre Livre declara livres todos os filhos de mulheres escravas, nascidos daquela data em diante), o norte-rio-grandense de Patu, Almino Afonso, futuro Senador da República.
Orador inflamado, ele pronunciaria durante as festividades do dia 30 mais de 20 discursos, em praça pública e no recinto oficial da solenidade. Foi dele uma das mais belas frases, no sentido literário: “Nós hoje somos livres como é livre a brisa sussurrante nos leques dos carnaubais”. Corajoso, redigiu um telegrama desafiador ao Imperador: “Imperador Pedro Segundo – Corte. Mossoró acaba libertar seus escravos embora contra a vontade de Vossa Majestade”. E ao pedir a Romualdo Galvão para assinar com ele este telegrama, tendo Romualdo manifestado um certo receio, AlminoAfonso exclamou: “Romualdo, não seja covarde. Quero mostrar ao Imperador de que são capazes os caboclos do Patu e do Campo Grande”.
O DIA 30
Para descrever em detalhes tudo o que ocorreu a 30 de setembro de 1883, em função das festas da proclamação da abolição da escravatura, seria necessário um livro. Nas páginas de jornal, o máximo que se pode fazer é um resumo. Imagine-se uma explosão de alegria coletiva, onde elites e pessoas das mais humildes condições participaram do mesmo estado de euforia e integração pessoal nos preparativos e concretização da festa.
Walter Wanderley escreveu (livro referido); “Durante uma semana os negros prepararam a ornamentação a cidade, conduzindo em carros-de-boi palmas de carnaubeira que iam sendo colocadas no centro da cidade. Bandeiras de todos os países eram colocadas nos seus mastros distribuídos pela atual rua 30 de setembro até à praça da Cadeia. No dia 29, no entanto, eram iniciadasas comemorações, fazendo-se uma marche auxflambeaux,à noite, à luz de archotes, constituindo-se um espetáculo indescritível. Conta-se que mais de cinco mil pessoas tomaram parte nessa passeata”.
No dia 30, realizou-se a sessão oficial no recinto da Câmara Municipal, iniciando-se às 12 horas e prolongando-se até altas horas da noite, após outro préstito que percorreu as ruas mossoroenses, com esta formação conforme descrição de uma reportagem no nº de 23/10/1883 do jornal “O Libertador”, de Fortaleza: adiante marchavam as meninas; as autoridades depois, as comissões Libertadoras do Ceará, Belém e Recife, os propagandistas na terceira coluna; e “as multidões, por fim, repercutindo o hosana e o bendito da Liberdade assinalavam o nascimento de uma nova era”.
A sessão constou de discursos, recitativos e cantos (os hinos abolicionistas foram cantados por crianças, conforme a narrativa empolgada e empolada da Ata da Sessão do dia 30 de setembro de 1883, escrita por Maurício Olegário do Rego Farias e ditada por Almino Afonso: “Feito, a custo, o silêncio, levantaram-se de pé as crianças brancas e louras, e as virgens morenas mais belas, como um bando de faisões dourados, que no solene rebôo, baixassem das regiões do céu, ou surgissem do ninho das auroras, cantando e gorjeando os Hinos da Redenção e o bendito da Liberdade”). O Presidente da Libertadora pronunciou a frase proclamando: “Mossoró está livre: aqui não hámais escravos”.
Enquanto isso, a cidade toda era um fervilhar de cores, luzes e sons. Casa iluminadas em profusão, monumentos alegóricos pelas praças, arcos de flores, bandas de música tocando, girândolas espocando e foguetes pirotécnicos formando desenhos e frases alusivas à data nos céus da cidade libertária. As festas pela libertação mossoroense ainda prosseguiram por mais sete dias, com passeatas, banquetes (no salão da Escola Noturna os escravos libertos ofereceram um aos seus libertadores), bailes e distribuição de cartas de ABC aos recém-libertos.
UMA DATA CÍVICA
O dia 30 de setembro é a data cívica principal de Mossoró, sobrepujando as datas da criação do município (15 de março) e da cidade (9 de novembro) no destaque oficial e no afeto popular. Coincidentemente, em anos posteriores a 1883 alguns acontecimentos de importância para a cidade de Souza Machado ocorreram justamente num dia 30 de setembro: em 1904, inauguração da Estátua da Liberdade, na Praça da Redenção; em 1917, fundação do Democrata Clube; em 1932, instalação do Coro Orfeônico da Escola Normal de Mossoró; em 1945, fundação da Associação Mossoroense de Estudantes; em 1948, instalação do Museu Municipal de Mossoró; em 1949, instalação da Companhia Melhoramentos de Mossoró S.A.; em 1953, inauguração do Monumento ao ex-Governador Dix-Sept Rosado, na Praça Vigário Antônio Joaquim; em 1971, inauguração da agência local da APERN (Associação de Poupança e Empréstimo do Rio Grande do Norte).
O dia 30 de setembro deveria ser uma data inspiradora de nossos artistas e escritores. Apesar de já terem escrito sobre ela alguns poetas (dentre outros, Paulo de Albuquerque, José Martins de Vasconcelos, Cosme Lemos e Maria Sylvia – autora do Hino do Centenário do 30 de setembro), o que está faltando é os episódios e os personagens do dia 30 inspiraram narrativas ficcionais (contos, romances – como na tradição dos bons escritores universais que criam obras-primas literárias baseando-se nos episódios da história do seu povo), peças de teatro, canções, telas, desenhos, estórias em quadrinhos fotonovelas, filmes, montagens especiais para nossa televisão (Canal 5). Afinal de contas, repita-se, o dia 30 somos todos nós, é nossa gente, nossa história e nossa tradição.


*Transcrito da Edição Especial do Jornal A República, Comemorativa do Centenário da Abolição dos Escravos, em Mossoró (30/09/1983).

26 de setembro de 2016

A Modinha no Rio Grande do Norte

Gumercindo SARAIVA
Para divulgarmos a história da Modinha, seus verdadeiros e autênticos seresteiros em nosso Estado, temos que nos transportar, ao ano de 1973, no Rio de Janeiro, que se fixou como capital do Brasil e as artes tomaram impulso, com a influência da casa de Bragança.
Na metrópole do país, os pioneiros da Modinha foram: Inácio José de Alvarenga Peixoto (Alceu) — Domingos Galdas Barbosa (Lorena) — To­más António Gonzaga (Dirceu) — Cláudio Manoel da Costa (Clauceste) — além de outros continuadores que se multiplicaram, passando de Estado para Estado, até chegarem ao Rio Grande do Norte, já em épocas distantes, mas o resultado positivo aí está registrado na literatura da terra de Alberto Mara­nhão e tantos outros vultos que engrandeceram sobremodo.
A Modinha, ao contrário do que muita gente pensa, é uma forma ver­dadeiramente artística, podendo assemelhar-se ao ROMAN francês, LIED ale­mão, FADO português, (de origem brasileiro) e à própria canção italiana, que foram interpretadas pelos maiores cantores como Caruso, Schipa, Ramirez, Kiepúra, etc, etc.
Aparecendo primeiramente nos salões imperiais, essa canção foi culti­vada pelos vultos mais proeminentes de seu tempo, como Padre José Maurício, Bonifácio de Abreu, Cónego Januário. Cunha Barbosa, Saldanha Marinho, Mar­cos Portugal, este último, grande compositor europeu que, chegando ao Brasil en­controu um clima altamente artístico que o deixou entusiasmado.
ventário, lides possessórias e livros de registros, a genealogia e as datas igno­radas dos que fizeram nossa História; que busca, nos arquivos de Lisboa e nos sebos do Rio de Janeiro, o material necessário para contar o dia a dia do Rio Grande do Norte colónia e província.
Não me cabe louvar, neste momento, a homenagem prestada à memória do meu pai, nem enaltecer a figura do magistrado e homem de letras, hoje centenário. Mas, permitam-me um instante de saudade, para recordar o pai amantíssimo e virtuoso, homem humilde que nunca se envaideceu das glórias terrenas e cuja santidade senti de perto, poucos meses antes do falecimento, quando conversávamos sobre deveres conjugais e dizia-me que nunca precisara ajoelhar-se aos pés de um padre para confessar pecado contra a castidade. "Era uma expressão autêntica do homem de Deus", disse Nilo Pereira.
Minha missão, porém, é outra. Sou intérprete do profundo agradeci­mento da família à Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, da qual meu pai foi Presidente e um dos fundadores, e do Instituto Histórico e Geográfico, onde serviu durante mais de cinquenta anos, honrado no cargo de 1.° Vice-Presidente até a morte.
Agradecer também ao Acadêmico Hélio Galvão, advogado de renome, sociólogo do mutirão, etnólogo das cartas da praia, Comendador da Santa Sé pela divu!gação de seus largos conhecimentos da filosofia e da doutrina social da Igreja, sempre equidistante do conservadorismo que retarda e do moder­nismo que deforma, e, sobretudo, para mim, o amigo fraternal há 46 anos, que me concedeu o privilégio de abençoar amiúde o primeiro e um dos últimos dos seus rebentos.
Finalmente, a família agradece a todos que prestigiaram esta noite de homenagem. Confortada pela religião que o chefe e santo ensinou, sente sua presença constante e recorda a conduta que Nilo Pereira tão bem definiu ao dizer: "O Juiz era nele a encarnação mesma da verdade e da retidão. E ao lado disso a simplicidade que ele irradiava, o gesto sempre acolhedor e aberto, o sorriso benevolente, a cordialidade da palavra — tudo refletia nele uma grande alma que Deus chamou para ouvir do próprio poeta a "Lira de Poti", acom­panhada pelo coro dos anjos".

D. Pedro I compôs Modinhas e participou de serenatas à porta das moças bonitas e de suas namoradas. . . Também o afamado desembargador, Luis Fortunato de Brito, foi um expoente máximo da Modinha e cantou bas­tante nos salões aristocráticos da cidade e saudou aos luares nos bairros mais distantes de sua terra. D. Pedro II, muito ligado a música erudita, dando geralmente preferência aos compositores alemães ouvia religiosamente os seres-teiros como se estivesse escutando as obras de Bach ou Handel.Contam, que, na passagem do século (1899-1900), o natalense comemo­rou esse acontecimento com serenatas e foram nessa ocasião cantadas Modinhas de toda a espécie. As vozes seresteiras, acompanhadas por violões, saudaram com seus timbres diversos, a entrada do novo século.. E o novo ano também! Fato idêntico se repetia nesta capital no dia 31 de dezembro de cada ano, quando era prefeito da capital o jornalista Djalma Maranhão, convidando Santos Lima, Evaristo de Souza, António Lucas, o autor deste reencontro, clari-netistas, bandolinistas da radiofonia potiguar tendo a frente o "caudilho" com sua voz desafinada mas de timbre abaritonado iniciando a Serenata com a "Canção do Pescador", seguindo-se, as Modinhas de Ivo Filho, Auta de Souza, Segundo Wanderley, Olímpio Batista Filho, Carolina Wanderley, Ferreira Itajubá, Gotardo Neto, Lourival Açucena e outros autores do passado.
As Serenatas coordenadas por nós, a pedido de Djalma Maranhão, co­meçavam na residência do sr. José Maux Júnior, situada à Praça André de Albuquerque n.° 22 e, da mesma partíamos em grupo até aos primeiros raios do sol do dia primeiro de janeiro. Mas, vieram outros prefeitos e essas serestas oficializadas pela edilidade natalense desapareceram. Djalma Maranhão com sua sensibilidade artística preservando os costumes e tradições de nossa gente visitava as residências amigas com uma popularidade jamais alcançada pelos seus seguidores. E o ciclo natalino se completava com Fandangos, Lapinhas, Bumba-Meu-Boi.. . e Serenatas, advindas de tempo remoto, em que surgiam poetas e músicos compondo canções destinadas as tertúlias, desaparecendo como era natural do nosso convívio.Acreditamos, que, em Natal, muito antes da passagem do ano de 1800, (ainda Vila) já se cantavam Lundum, Chiba e outro tipo de música, mesmo por­que, a Modinha, desde fins do século XVI, era conhecida no Rio de Janeiro e Bahia. Desligando-se da SERRANILHA portuguesa, romance melodioso de caráter triste, mavioso, originária das camponesas de "Tras-os-Montes", ela, seintegrou em forma erudita, por isso, homens cultos tanto em Portugal como no Brasil, fizeram versos musicados, cujas estrofes são encontradas como jóias na literatura dos dois países, marcando uma época que nos separa com verda­deira recordação do passado.
Daí, ter o escritor, Mário de Andrade, afirmado que "a proveniência erudita europeia das Modinhas, é incontestável. Por outro lado os escribas an­tigos, se referindo às formas populares, citam o Lundum, o Samba, o Cateretê, a Chiba, etc, etc, por Brasil e Portugal, mas a Modinha de que falam é sempre a   de salão, de forma e fundo eruditos, vivendo na Corte e na Burguesia. . ."
Inicialmente acompanhada ao piano, a Modinha se estendeu grande­mente nas salas de música, onde suas estrofes possuíam o mesmo prestígio dos Quartetos de Câmera. Os cantores eram pessoas da alta sociedade, que não obstante interpretar as canções de autores anónimos, sentiam sempre o encanto de suas estrofes apaixonadas, aliadas a uma bonita melodia, produto de ins­piração de músicos de real envergadura de seu tempo. Dos salões, a Modinha passou a ser o encanto das serenatas, onde os luares eram saudados pelos acordes de violões plangentes que completariam noitadas alegres e festivas nas portas das moças onde os namorados enviavam uma mensagem de amor através das cmções especializadas.
Câmara Cascudo, estudando a Modinha norte-rio-grandense, num artigo em SOM, (Revista dirigida por C. Cascudo-Waldemar de Almeida-Gumercindo Saraiva) disse: "Não há um só poeta norte-rio-grandense que não haja dado ao violão algumas quadras. Muitos escreveram quase totalmente para ele, como I.ourival Açucena, Areias Bajão e Francisco Otílio. Outros só pelas Modinhas poderá ser conhecido. É o caso de Celestino Wanderley cujo livrinho AURORA (Natal 1890) é inadiável. A memória modinheira recordará sempre sua pro­dução "Hontem, hoje, amanhã" e o "Aí não queiras saber formosa Diva".
OS COMPOSITORES DESTE SÉCULO
A Modinha em nossa terra tem sido pouco divulgada e por isso em 1960 lançamos TROVADORES POTIGUARES, numa edição de Saraiva S. A. de São Paulo que também editou ANTOLOGIA DA CANÇÃO BRASILEIRA. Esses livros estão bem longe de se constituírem um relato completo, pois nossa pretensão, apenas, serviu para auxiliar em parte a história da canção mais popularizada em nosso Estado. Demos, é certo, um passo alongado, pesqui­sando Modinhas já no esquecimento do povo.
Nossa coleção, contendo mais de três mil poemas de autores norte-rio--grandenses, selecionadas e identificadas em sua primazia, será entregue na pri­meira oportunidade a uma instituição especializada, logo o nosso Estado pos­sua uma, para que seja salvo um património, antes vivendo ao relento e que julgamos valiosa para a nossa formação artístico-cultural. A própria vida de uma nação está muitas vezes cantada em versos.
É notório o número de pessoas que puseram música em versos anóni­mos e de poetas potiguares e a riqueza de melodia se perde porque o seres-teiro somente canta aquilo que gosta e no poema, encontre amores frustra­dos, romances entre dois jovens, lendas, paixão com afeto violento, afeição, grande mágoa e outros sentimentos excessivos. Outro estilo vivido na Mo­dinha é o misticismo na crença religiosa, como aconteceu na obra de Auta de Souza — uma das poetisas mais musicadas — em nosso Estado. Também, os poetas influenciados pela poesia condoreira, a exemplo de Segundo Wan-derley e outros vates completando admiravelmente o estilo da última fase romântica que tiveram Castro Alves, Tobias Barreto e Pedro Luís como mestres.
Por isso Abdon Trigueiro. Joaquim Galhardo, Cirilo Lopes, Cirineu de Vasconcelos, Israel, Chico, Jayme, João e Abelardo Botelho, Gabriel e João Saraiva, Temistocles Costa, Olímpio Batista Filho, Uriel e Junquilho Lourival, Eduardo Medeiros e Heronides França, este último, o que mais musicou os versos de Auta de Souza, com melodias repletas de ternura, onde os tons me­nores indicam mágoas e tristezas, envolvidas em grande parte na vivência de alguns sereneiros do passado, deixaram uma obra valiosa na história da Mo­dinha potiguar.
OS TEXTOS MUSICAIS ESTÃO SE PERDENDO
É lamentável que os textos musicais de nossas Modinhas não estejam no pentagrama, pois conseguimos, apenas, escrever e gravar umas duzentas composições, dando uma contribuição muito importante para que no futuro tenhamos, pelo menos as mais popularizadas. E a outra parte, com o de­correr do tempo há de sumir-se uma vez que autênticos conhecedores das melodias estão desaparecendo e alguns, não mais lembrando-se do verdadeiro texto musical.
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte ou a Fundação José Augusto bem poderiam organizar em "cassete", ou em outra forma de grava­ção. Modinhas potiguares, preservando desta maneira uma preciosidade ligada à musicalidade de nossa terra.


CANÇÃO DO PESCADOR
Constituindo a Modinha mais cantada do cancioneiro potiguar, publica­remos essa jóia de canção, composta em 1922, versos do poeta Othoniel Me­neses (1895-1969) membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, eleito para ocupar a Cadeira n.° 23 substituindo Bezerra Júnior, deixando de assu­mir o honroso encargo imposto por um grupo de amigos e admiradores logo após a vaga deixada pelo seu antecessor.
A "Canção do Pescado;", no decorrer do tempo, tornou-se merecida­mente uma música do povo que deu-lhe o nome de PRAIEIRA, não podendo se distinguir qual mais primorosa — a melodia do clarinetista Eduardo Me­deiros ou o poema de Othoniel Meneses, considerado o príncipe dos poetas noi te-rio-grandense.
Eis as estrofes da CANÇÃO DO PESCADOR

Versos de Othoniel Meneses Música de Eduardo Medeiros

I
Praieira dos meus amores
encanto do meu olhar !
quero contar-te os rigores
sofridos a pensar
em ti, sobre o alto mar !
Ai 1 não sabes que saudade
padece o nauta, ao partir,
sentindo, na imensidade,
o seu batel fugir
— incerto do porvir !

II
Os perigos da tormenta não se comparam, querida, as dores que experimenta a alma, na dor perdida, nas ânsias da partida! Adeus a luz, que desmaia nos coqueirais, ao sol pôr e, bem pertinho da praia, o albergue, o ninho, o amor do humilde pescador 1




Ill
Quem vê, ao longe, passando uma vela, panda, ao vento, não sabe quanto lamento vai nela soluçando
— a Pátria procurando !
Praieira, meu pensamento,
linda flor, vem me escutar
a história do sofrimento
de um nauta a recordar amores sobre o mar !
IV
Praieira, linda entre as flores
deste jardim potiguar !
não há mais fundos horrores,
iguais a esses do mar
— passados a lembrar !
A mais cruel noite escura,
nortadas e cerração,
não trazem tanta amargura
como a recordação
que aperta o coração !
V
Se às vezes, seguindo a frota
pairava uma gaivota,
logo eu pensava, bem triste:
  "o amor que lá deixei, quem sabe se ainda existe?" — Ela, então, gritava triste:
  "não chores! não sei" ! —
E eu sempre e sempre mais triste,
rezava a murmurar:
'— "Meu Deus ! quero voltar" !


Praieira do meu pecado,
morena flor, não te escondas!
quero, ao sussurro das ondas
do Potengi amado
— dormir sempre a teu lado. ..
Depois de haver dominado
o mar profundo e bravio,
à margem verde do rio
serei teu pescador,

oh ! pérola do amor !

21 de setembro de 2016

MÁXIMO MEDEIROS

Jurandyr Navarro

Natural do município rio-grandense-do-norte de "Augusto Severo", da chamada tromba do elefante, fez os seus estudos iniciais em ambiente social modesto; continuan­do, depois, na progressiva cidade de Mossoró, deste Estado.
Desde cedo ostentou capacidade intelectual, aprendendo com relativa facilidade as disciplinas dos cursos primário e ginasial. Esse aprendizado capacitou-o a sua habi­litação ao vestibular em Medicina, na velha Faculdade do Derby, no Recife.
Esta foi a prova de fogo, como se chama, de Máximo Medeiros Filho, o potiguar de origem modesta que saiu do seu Estado para enfrentar os formidáveis desafios da Ciêcia!
E saiu bem neste primeiro teste, estágio limiar para atingir outros, no Brasil e foradele.
O vestibular enfrentado por Máximo Medeiros foi o mais difícil até então realizado em Medicina, na Mauricéia. Apenas dez por cento dos candidatos foi aprovado. E, mesmo assim, enfrentando uma Banca com Bezerra Coutinho, examinando Biologia, ele, o humilde potiguar, foi aprovado em oitavo lugar.
Daí em diante a vida de Máximo foi uma verdadeira odisseia, transpondo obstácu­los os mais difíceis, numa jornada longa, perlustrando uma estrada juncada de espi­nhos.
Sintetizamo-la, através de algumas passagens do livro intitulado: "Lembrando Máximo Medeiros Filho",do autor Carlos Ernani Rosado Soares, o seu "amigo há qua­renta anos".
Com a palavra, o erudito autor:

"O campo dos radioisótopos lhe daria o renome internacio­nal". (...) “Tinha pendor pela Matemática e a Física". (...) A lição que Máximo Medeiros nos deu em vida continua após a sua mor­te. Lição de capacidade profissional, de cultura geral; porém, mais que tudo, lição de humanidade: honestidade, caráter, bondade, simplicidade, calor humano, tudo era transmitido por sua encan­tadora personalidade que se impunha sem se fazer notar".

(...) Máximo veio para Natal, prosseguir seus estudos, e o fez de modo caracte­risticamente brilhante. Eu me lembrava de tê-lo visto em uma fotografia, dessa época, ao lado de José Eufrânio, Moacyr de Góes, Ubiratan Galvão e outros. E foi a Ubiratan que recorri, em função da amizade e parentesco afim, obtendo dele o seguinte comen­tário:
'Máximo é um gênio”.

Em 1962, conseguiu uma bolsa em Radiobiologia na Universidade da Califórnia, através da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Ficaria no Donner Laboratory of Biophisics, de setembro deste ano a junho do seguinte. Foram propostos sete candida­tos e apenas três aceitos, tendo Máximo ficado em primeiro lugar (...) Insistia em receber velhos livros do Cônego Luiz Monte, de quem era grande admirador, incluindo um que ele sabia ter existência, de Biologia, e que teria sido publicado para uso nos Seminários.( ... ) Enviava-me o Jornal Brasileiro de Medicina Nuclear onde ele tinha trabalho publicado, bem como Separata da Ata Hematológica, idem,idem. ( ... ) Em 1967 representou o Brasil em Viena, num Simpósio Internacional sobre Dinâmica de Proteínas Marcadas, e que em carta ressaltou: - 'Foi uma reunião de alto nível de "set" internacional que trabalha atualmente em D. de P. M., se você me permite falar assim. Basta dizer que estavam presentes McFarlane (inglês, considerado presentemente a maior autoridade mundial em gamaglobulina); Waterlow (um inglês extraordinário, de cachimbo na boca, daquele jeito que você bem conhece), Jeejeebhoy, indiano, autorida­de internacional em assuntos relacionados com perda proteica por via gastrointestinal..."
São tópicos, apenas, desse grande livro de Ernani Rosado que retrata o cientista Máximo Medeiros, seu amigo e nosso conterrâneo, para orgulho do Rio Grande do Norte.
Ernani Rosado, para quem não sabe, é um dos valores mais destacados da Medi­cina Brasileira, sendo Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões; autor do Tra­balho, dentre outros, "Pós-operatório sem Antibioticoterapia Profilática".
O Doutor Ernani Rosado foi aprovado em primeiro lugar no vestibular de Medicina, sendo o melhor aluno da sua Turma e escolhido o seu Orador, na sua Diplomação como Médico, em Recife.
Ele e Vingt-Un Rosado são os dois biógrafos do cientista Máximo Medeiros Filho.
Como frisou Ernani Rosado e adiante se verá nas paginas de Vingt-Un Rosado, o que imortalizou o nome de Máximo Medeiros, na Comunidade Científica Internacional, foi o de ter tomado parte integrante da Reunião, em Viena, da Agência de Energia Atômica, em outubro de 1967, aos trinta e seis anos de idade. Foi ele o único represen­tante do Brasil e um dos dois da América Latina.
A sua escolha foi feita, pessoalmente, pelo Professor Ernest Belcher, então Dire-tor daquela Agência científica internacional.
Conheci Máximo Medeiros no Recife. Foi meu contemporâneo de Universidade. Ele, fazendo Medicina, e eu, Direito. Terminamos o Curso no mesmo ano: 1956. O seu nome despontou, para nós, do Rio Grande do Norte, desde o vestibular: havia a curiosi­dade de se saber os aprovados de Natal. E Máximo estava na lista dos aprovados da famosa Faculdade do Derby, no exame vestibular mais apertado da sua história, até então.
Passou-se o tempo. No início do ano de 1980, recebo dele, uma carta atenciosa, do Rio de Janeiro, adiante transcrita, sobre um assunto científico estudado pelo Padre Luiz Monte, inserido na Antologia por mim organizada, cujo teor se vê em sequência, uma espécie de depoimento expressado por Máximo Medeiros em relação ao saber científico do mencionado sacerdote, pertinente à Fisiologia.

Mesmo tendo vivido apenas quarenta e nove anos de idade, Máximo Medeiros Filho armazenou acentuado cabedal de conhecimentos em matéria científica, galgando, pelo estudo, tenacidade e inteligência um lugar de destaque dentre os vultos Notáveis do Rio Grande do Norte.