17 de fevereiro de 2017

O dia em que Maria fez Lampião tremer de amor




Por Xico Sá - cronista e escritor

Dia Internacional da Mulher, dia de aniversário de Maria Bonita.
Essa menina que enjoou da boneca mais cedo do que as outras.
Essa baixinha invocada. Tipo que a gente gama pela brabeza e pelo destemor de se jogar lindamente sob o solzão estralado da existência.
Pense em uma mulher bem-resolvida, meu caro Sigmund. Melhor: uma mulher que sabia o que queria no calor da hora. Repare a enquadrada que ela dá em Virgulino:
– Como é, quer me levar ou quer que eu lhe acompanhe? –sapecou a baiana, idos de 1929, dos 18 para 19 anos, deixando Lampião, acossado, risinho amarelo fora dos beiços.
Foi a primeira cantada de uma mulher em um homem no Nordeste brasileiro. Reza a lenda e quem tiver sua realidade que não me venha botar gosto ruim na história.
O temido bandoleiro, que já havia deixado um rastro de sangue pelos sertões, estava diante de uma mulher que o fazia tremer como vara verde de canafístola:
– Como você quiser, Maria; eu também quero. Se estiver disposta a me acompanhar, vambora” –respondeu, assombrado com a danação da pequena.
E lá estava formado, com esse diálogo fumegante, o casal mais lendário do Nordwestern -Bonnie & Clyde é muito pouco quase nada diante das aventuras desta parelha.
A moreninha mignon, olhos enfeitiçadores –charmosamente estrábicos, como amo isso!–, era a primeira fêmea a participar de um bando de cangaceiros, uma história dominada pelos homens desde que o século 18, quando o pernambucano José Gomes (1751-1776), o Cabeleira, deu início a este ramo.
O pioneirismo de Maria Gomes de Oliveira enfrentou resistência. A suspeita dos cabras de Lampião era que a presença feminina enfraqueceria o cangaço, facilitando a captura dos fora-da-lei por parte das forças policiais ou “volantes”, como eram conhecidas.
“Homem de batalha não pode andar com mulher. Se ele tem uma relação, perde a oração, e seu corpo fica como uma melancia: qualquer bala atravessa”, declarou o cangaceiro Balão.
O sociólogo e psicanalista cearense Daniel Lins, no seu livro “Lampião, o Homem que Amava as Mulheres” (ed. Annablume) mostra o contrário. A tropa ganhou mais força com a presença delas.
Um depoimento do bandoleiro Volta Seca -um excelente compositor, aliás -sustenta o argumento: “Elas se mostravam sempre corajosas, era raro que criassem problemas”.
Há quem entenda a participação de Maria Bonita e suas amigas, companheiras de outros integrantes do bando, como um marco precursor do feminismo no Brasil. Faz todo sentido.
“Pela primeira vez na história, as mulheres dividiam as tarefas com os homens igualitariamente. E o comprimento da saia subiu para acima do joelho”, diz um dos principais especialista do ciclo do cangaço, o historiador Frederico Pernambucano de Melo, autor do clássico e imperdível (mesmo!) “Guerreiros do Sol” (ed. Girafa). Leia, Lola, leia.
Quando conheceu Virgulino Ferreira, na fazenda Malhada do Caiçara, hoje município de Paulo Afonso (BA), onde Lampião se refugiava, Maria era casada, desde os 15, com o sapateiro José Miguel da Silva, o Zé de Neném, contra quem pesava, coitado, naquele cenário machista, a suspeita de ser estéril.
A convicção que estava diante do amor da sua vida foi fatal para o fim do primeiro relacionamento de Maria Bonita.
Dai por diante o rei e a rainha do cangaço se grudaram, entre batalhas, dengos e cafunés –um capricho de Virgulino–, durante nove anos, até que a morte os separou, em 28 de julho de 1938, quando Lampião foi assassinado pela PM e Maria, degolada, na mesma ocasião, na gruta de Angicos, em Poço Redondo, Sergipe. Fim do romance, jamais do amor e da lenda.
§§§
De profundis: Se você quer saber mais sobre todas estas danações, leia, além do Frederico e do Daniel, acima citados, “A dona de Lampião”, livraço, narrativa com boniteza e arrojo, da escritora Vanessa Campos, de Tirunfo (PE) para o mundo.

Querem mais dois bons, para instigar o juízo e o conhecimento sobre esse tema mais do que fascinante? Lá vai: “Lampião –as mulheres e o cangaço” (ed. Traço), de Antonio Amaury; “Os Homens que Mataram o Facínora – A História dos Grandes Inimigos de Lampião” (Record), de Moacir Assunção.

16 de fevereiro de 2017

Histórias em quadrinhos made in Natal!

Por Milena Azevedo*

    A produção de quadrinhos papa-jerimum vem ganhando novo fôlego com o surgimento de uma nova geração de quadrinistas. Entre desenhistas, roteiristas, arte-finalistas e coloristas, há pelo menos duas dezenas de artistas dedicados à produção de HQs no Estado. E esse pessoal não está pra brincadeira. É o que você vai ver nesta matéria especial.
O GRUPEHQ E A MATURI
   Até onde se sabe, a história dos quadrinhos em Natal começou a ser escrita em 1971. Nesse ano, desenhistas, ilustradores, roteiristas e colecionadores potiguares se uniram e fundaram o Grupo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos (Grupehq). Fruto dessa junção de talentos, nasceu a revista Maturi, que depois de algumas idas e vindas, em uma história que tem quase 40 anos, voltou a ser publicada com maior regularidade em 2010, em formato maior, com novo design, cor e histórias que falam da cultura potiguar - característica principal da HQ.
ROMPENDO FRONTEIRAS
   Potiguares que têm se destacado no cenário nacional e internacional. Gabriel  Actraiser está fazendo sucesso nos EUA. Além de ser um dos desenhistas da série em quadrinhos Aliens, da Dark Horse, também é responsável pela arte da revista Die Hard - Year One, quadrinhos sobre os primeiros anos do tira John McClane, do filme Duro de Matar. Wendell Cavalcanti está trabalhando em sete HQs norte-americanas, entre elas The Aadventures of Paula Peril, do Atlantis Studio, e The Invisible Scarlet O'neil, famosa personagem de tirinhas dos jornais norte-americanos da década de 1950, que está sendo repaginada pela New Legend Productions.    Williandi Albuquerque é um dos participantes da coletânea MSP + 50, segundo título em homenagem aos 50 anos de profissão do Mauricio de Sousa, pai da Turma da Mônica. Wanderline Freitas, Milena Azevedo e Wendell Cavalcanti tiveram HQs selecionadas para a revista Subversos, coletânea nacional que publica histórias com a temática “cotidiano urbano”.
   A heroína Cabala, criação de Miguel Rude e Lula Borges, teve aventuras publicadas na revista Grandes Encontros, coletânea de histórias com super-herois brazucas. A jovem Giovana Leandro é artista certificada internacionalmente pela Manga University (Faculdade de Mangá japonesa).
QUADRINHOS NA REDE
   Os quadrinistas também descobriram a internet como meio de dar visibilidade às suas produções K-ótica - Webcomic capitaneada por Marcos Guerra, conta com a participação dos desenhistas Victor Negreiro, Leander, José Denilson, César Silva e Jansen Baracho. Já saíram seis edições. Onde baixar: www.revistacatorze.com.brSOQ! (Só Quadrinhos!) - Revista virtual criada  pelos integrantes da ABAS/República dos Quadrinhos. Onde baixar: http://www.4shared.com/document/aRviEtwZ/soq_1.html


13 de fevereiro de 2017

A Modinha no Rio Grande do Norte


Gumercindo SARAIVA
Para divulgarmos a história da Modinha, seus verdadeiros e autênticos seresteiros em nosso Estado, temos que nos transportar, ao ano de 1973, no Rio de Janeiro, que se fixou como capital do Brasil e as artes tomaram impulso, com a influência da casa de Bragança.
Na metrópole do país, os pioneiros da Modinha foram: Inácio José de Alvarenga Peixoto (Alceu) — Domingos Galdas Barbosa (Lorena) — To­más António Gonzaga (Dirceu) — Cláudio Manoel da Costa (Clauceste) — além de outros continuadores que se multiplicaram, passando de Estado para Estado, até chegarem ao Rio Grande do Norte, já em épocas distantes, mas o resultado positivo aí está registrado na literatura da terra de Alberto Mara­nhão e tantos outros vultos que engrandeceram sobremodo.
A Modinha, ao contrário do que muita gente pensa, é uma forma ver­dadeiramente artística, podendo assemelhar-se ao ROMAN francês, LIED ale­mão, FADO português, (de origem brasileiro) e à própria canção italiana, que foram interpretadas pelos maiores cantores como Caruso, Schipa, Ramirez, Kiepúra, etc, etc.
Aparecendo primeiramente nos salões imperiais, essa canção foi culti­vada pelos vultos mais proeminentes de seu tempo, como Padre José Maurício, Bonifácio de Abreu, Cónego Januário. Cunha Barbosa, Saldanha Marinho, Mar­cos Portugal, este último, grande compositor europeu que, chegando ao Brasil en­controu um clima altamente artístico que o deixou entusiasmado.
ventário, lides possessórias e livros de registros, a genealogia e as datas igno­radas dos que fizeram nossa História; que busca, nos arquivos de Lisboa e nos sebos do Rio de Janeiro, o material necessário para contar o dia a dia do Rio Grande do Norte colónia e província.
Não me cabe louvar, neste momento, a homenagem prestada à memória do meu pai, nem enaltecer a figura do magistrado e homem de letras, hoje centenário. Mas, permitam-me um instante de saudade, para recordar o pai amantíssimo e virtuoso, homem humilde que nunca se envaideceu das glórias terrenas e cuja santidade senti de perto, poucos meses antes do falecimento, quando conversávamos sobre deveres conjugais e dizia-me que nunca precisara ajoelhar-se aos pés de um padre para confessar pecado contra a castidade. "Era uma expressão autêntica do homem de Deus", disse Nilo Pereira.
Minha missão, porém, é outra. Sou intérprete do profundo agradeci­mento da família à Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, da qual meu pai foi Presidente e um dos fundadores, e do Instituto Histórico e Geográfico, onde serviu durante mais de cinquenta anos, honrado no cargo de 1.° Vice-Presi-dente até a morte.
Agradecer também ao Académico Hélio Galvão, advogado de renome, sociólogo do mutirão, etnólogo das cartas da praia, Comendador da Santa Sé pela divu!gação de seus largos conhecimentos da filosofia e da doutrina social da Igreja, sempre equidistante do conservadorismo que retarda e do moder­nismo que deforma, e, sobretudo, para mim, o amigo fraternal há 46 anos, que me concedeu o privilégio de abençoar amiúde o primeiro e um dos últimos dos seus rebentos.
Finalmente, a família agradece a todos que prestigiaram esta noite de homenagem. Confortada pela religião que o chefe e santo ensinou, sente sua presença constante e recorda a conduta que Nilo Pereira tão bem definiu ao dizer: "O Juiz era nele a encarnação mesma da verdade e da retidão. E ao lado disso a simplicidade que ele irradiava, o gesto sempre acolhedor e aberto, o sorriso benevolente, a cordialidade da palavra — tudo refletia nele uma grande alma que Deus chamou para ouvir do próprio poeta a "Lira de Poti", acom­panhada pelo coro dos anjos".

D. Pedro I compôs Modinhas e participou de serenatas à porta das moças bonitas e de suas namoradas. . . Também o afamado desembargador, Luis Fortunato de Brito, foi um expoente máximo da Modinha e cantou bas­tante nos salões aristocráticos da cidade e saudou aos luares nos bairros mais distantes de sua terra. D. Pedro II, muito ligado a música erudita, dando geralmente preferência aos compositores alemães ouvia religiosamente os seres-teiros como se estivesse escutando as obras de Bach ou Handel.Contam, que, na passagem do século (1899-1900), o natalense comemo­rou esse acontecimento com serenatas e foram nessa ocasião cantadas Modinhas de toda a espécie. As vozes seresteiras, acompanhadas por violões, saudaram com seus timbres diversos, a entrada do novo século.. E o novo ano também! Fato idêntico se repetia nesta capital no dia 31 de dezembro de cada ano, quando era prefeito da capital o jornalista Djalma Maranhão, convidando Santos Lima, Evaristo de Souza, António Lucas, o autor deste reencontro, clari-netistas, bandolinistas da radiofonia potiguar tendo a frente o "caudilho" com sua voz desafinada mas de timbre abaritonado iniciando a Serenata com a "Canção do Pescador", seguindo-se, as Modinhas de Ivo Filho, Auta de Souza, Segundo Wanderley, Olímpio Batista Filho, Carolina Wanderley, Ferreira Itajubá, Gotardo Neto, Lourival Açucena e outros autores do passado.
As Serenatas coordenadas por nós, a pedido de Djalma Maranhão, co­meçavam na residência do sr. José Maux Júnior, situada à Praça André de Albuquerque n.° 22 e, da mesma partíamos em grupo até aos primeiros raios do sol do dia primeiro de janeiro. Mas, vieram outros prefeitos e essas serestas oficializadas pela edilidade natalense desapareceram. Djalma Maranhão com sua sensibilidade artística preservando os costumes e tradições de nossa gente visitava as residências amigas com uma popularidade jamais alcançada pelos seus seguidores. E o ciclo natalino se completava com Fandangos, Lapinhas, Bumba-Meu-Boi.. . e Serenatas, advindas de tempo remoto, em que surgiam poetas e músicos compondo canções destinadas as tertúlias, desaparecendo como era natural do nosso convívio.Acreditamos, que, em Natal, muito antes da passagem do ano de 1800, (ainda Vila) já se cantavam Lundum, Chiba e outro tipo de música, mesmo por­que, a Modinha, desde fins do século XVI, era conhecida no Rio de Janeiro e Bahia. Desligando-se da SERRANILHA portuguesa, romance melodioso de caráter triste, mavioso, originária das camponesas de "Tras-os-Montes", ela, seintegrou em forma erudita, por isso, homens cultos tanto em Portugal como no Brasil, fizeram versos musicados, cujas estrofes são encontradas como jóias na literatura dos dois países, marcando uma época que nos separa com verda­deira recordação do passado.
Daí, ter o escritor, Mário de Andrade, afirmado que "a proveniência erudita europeia das Modinhas, é incontestável. Por outro lado os escribas an­tigos, se referindo às formas populares, citam o Lundum, o Samba, o Cateretê, a Chiba, etc, etc, por Brasil e Portugal, mas a Modinha de que falam é sempre a   de salão, de forma e fundo eruditos, vivendo na Corte e na Burguesia. . ."
Inicialmente acompanhada ao piano, a Modinha se estendeu grande­mente nas salas de música, onde suas estrofes possuíam o mesmo prestígio dos Quartetos de Câmera. Os cantores eram pessoas da alta sociedade, que não obstante interpretar as canções de autores anónimos, sentiam sempre o encanto de suas estrofes apaixonadas, aliadas a uma bonita melodia, produto de ins­piração de músicos de real envergadura de seu tempo. Dos salões, a Modinha passou a ser o encanto das serenatas, onde os luares eram saudados pelos acordes de violões plangentes que completariam noitadas alegres e festivas nas portas das moças onde os namorados enviavam uma mensagem de amor através das cmções especializadas.
Câmara Cascudo, estudando a Modinha norte-rio-grandense, num artigo em SOM, (Revista dirigida por C. Cascudo-Waldemar de Almeida-Gumercindo Saraiva) disse: "Não há um só poeta norte-rio-grandense que não haja dado ao violão algumas quadras. Muitos escreveram quase totalmente para ele, como I.ourival Açucena, Areias Bajão e Francisco Otílio. Outros só pelas Modinhas poderá ser conhecido. É o caso de Celestino Wanderley cujo livrinho AURORA (Natal 1890) é inadiável. A memória modinheira recordará sempre sua pro­dução "Hontem, hoje, amanhã" e o "Aí não queiras saber formosa Diva".
OS COMPOSITORES DESTE SÉCULO
A Modinha em nossa terra tem sido pouco divulgada e por isso em 1960 lançamos TROVADORES POTIGUARES, numa edição de Saraiva S. A. de São Paulo que também editou ANTOLOGIA DA CANÇÃO BRASILEIRA. Esses livros estão bem longe de se constituírem um relato completo, pois nossa pretensão, apenas, serviu para auxiliar em parte a história da canção mais popularizada em nosso Estado. Demos, é certo, um passo alongado, pesqui­sando Modinhas já no esquecimento do povo.
Nossa coleção, contendo mais de três mil poemas de autores norte-rio--grandenses, selecionadas e identificadas em sua primazia, será entregue na pri­meira oportunidade a uma instituição especializada, logo o nosso Estado pos­sua uma, para que seja salvo um património, antes vivendo ao relento e que julgamos valiosa para a nossa formação artístico-cultural. A própria vida de uma nação está muitas vezes cantada em versos.
É notório o número de pessoas que puseram música em versos anóni­mos e de poetas potiguares e a riqueza de melodia se perde porque o seres-teiro somente canta aquilo que gosta e no poema, encontre amores frustra­dos, romances entre dois jovens, lendas, paixão com afeto violento, afeição, grande mágoa e outros sentimentos excessivos. Outro estilo vivido na Mo­dinha é o misticismo na crença religiosa, como aconteceu na obra de Auta de Souza — uma das poetisas mais musicadas — em nosso Estado. Também, os poetas influenciados pela poesia condoreira, a exemplo de Segundo Wan-derley e outros vates completando admiravelmente o estilo da última fase romântica que tiveram Castro Alves, Tobias Barreto e Pedro Luís como mestres.
Por isso Abdon Trigueiro. Joaquim Galhardo, Cirilo Lopes, Cirineu de Vasconcelos, Israel, Chico, Jayme, João e Abelardo Botelho, Gabriel e João Saraiva, Temistocles Costa, Olímpio Batista Filho, Uriel e Junquilho Lourival, Eduardo Medeiros e Heronides França, este último, o que mais musicou os versos de Auta de Souza, com melodias repletas de ternura, onde os tons me­nores indicam mágoas e tristezas, envolvidas em grande parte na vivência de alguns sereneiros do passado, deixaram uma obra valiosa na história da Mo­dinha potiguar.
OS TEXTOS MUSICAIS ESTÃO SE PERDENDO
É lamentável que os textos musicais de nossas Modinhas não estejam no pentagrama, pois conseguimos, apenas, escrever e gravar umas duzentas composições, dando uma contribuição muito importante para que no futuro tenhamos, pelo menos as mais popularizadas. E a outra parte, com o de­correr do tempo há de sumir-se uma vez que autênticos conhecedores das melodias estão desaparecendo e alguns, não mais lembrando-se do verdadeiro texto musical.
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte ou a Fundação José Augusto bem poderiam organizar em "cassete", ou em outra forma de grava­ção. Modinhas potiguares, preservando desta maneira uma preciosidade ligada à musicalidade de nossa terra.


CANÇÃO DO PESCADOR
Constituindo a Modinha mais cantada do cancioneiro potiguar, publica­remos essa jóia de canção, composta em 1922, versos do poeta Othoniel Me­neses (1895-1969) membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, eleito para ocupar a Cadeira n.° 23 substituindo Bezerra Júnior, deixando de assu­mir o honroso encargo imposto por um grupo de amigos e admiradores logo após a vaga deixada pelo seu antecessor.
A "Canção do Pescado;", no decorrer do tempo, tornou-se merecida­mente uma música do povo que deu-lhe o nome de PRAIEIRA, não podendo se distinguir qual mais primorosa — a melodia do clarinetista Eduardo Me­deiros ou o poema de Othoniel Meneses, considerado o príncipe dos poetas noi te-rio-grandense.
Eis as estrofes da CANÇÃO DO PESCADOR

Versos de Othoniel Meneses Música de Eduardo Medeiros

I
Praieira dos meus amores
encanto do meu olhar !
quero contar-te os rigores
sofridos a pensar
em ti, sobre o alto mar !
Ai 1 não sabes que saudade
padece o nauta, ao partir,
sentindo, na imensidade,
o seu batel fugir
— incerto do porvir !

II
Os perigos da tormenta não se comparam, querida, as dores que experimenta a alma, na dor perdida, nas ânsias da partida! Adeus a luz, que desmaia nos coqueirais, ao sol pôr e, bem pertinho da praia, o albergue, o ninho, o amor do humilde pescador 1




Ill
Quem vê, ao longe, passando uma vela, panda, ao vento, não sabe quanto lamento vai nela soluçando
— a Pátria procurando !
Praieira, meu pensamento,
linda flor, vem me escutar
a história do sofrimento
de um nauta a recordar amores sobre o mar !
IV
Praieira, linda entre as flores
deste jardim potiguar !
não há mais fundos horrores,
iguais a esses do mar
— passados a lembrar !
A mais cruel noite escura,
nortadas e cerração,
não trazem tanta amargura
como a recordação
que aperta o coração !
V
Se às vezes, seguindo a frota
pairava uma gaivota,
logo eu pensava, bem triste:
  "o amor que lá deixei, quem sabe se ainda existe?" — Ela, então, gritava triste:
  "não chores! não sei" ! —
E eu sempre e sempre mais triste,
rezava a murmurar:
'— "Meu Deus ! quero voltar" !


Praieira do meu pecado,
morena flor, não te escondas!
quero, ao sussurro das ondas
do Potengi amado
— dormir sempre a teu lado. ..
Depois de haver dominado
o mar profundo e bravio,
à margem verde do rio
serei teu pescador,

oh ! pérola do amor !

PARA RELEMBRAR - O MACHADIANO PROFESSOR RODRIGUES ALVES



                                                                 Odúlio Botelho Medeiros
MHVOAB/RN – ALEJURN – INRG – IHGRN - UBERN

                        É sempre bom relembrar as pessoas que marcaram as nossas vidas, a partir da juventude. E uma dessas imagens que cultivamos é a do grande Professor do Atheneu Francisco Rodrigues Alves, especialista em língua portuguesa, literatura, amigo e admirador do eterno Prefeito Djalma Maranhão – O Centenário. Por isso, em homenagem aos dois inesquecíveis vultos, rememoramos, agora, o Professor Rodrigues Alves, mestre do vernáculo e de sábias lições de vida, fazendo republicar este trabalho que foi produzido no ano de 2005 e publicado no Jornal O Metropolitano, no referido ano.
“Fui criado ouvindo o seresteiro Chico Botelho dizer: “a justiça tarda, mas não falha”. Quando tomei conhecimento de que o advogado/escritor David de Medeiros Leite iria homenagear, quando de sua posse no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, o professor RODRIGUES ALVES, velho mestre de português do ATHENEU, lembrei-me das verdades que eram difundidas pelo meu avô. É que, afora Nei Leandro de Castro, um dos seus ex-alunos que, em talentoso artigo publicado na Tribuna do Norte, de 1º de maio de 2005, prestou-lhe bonita e justa homenagem, que empolgou a cidade e sensibilizou os que foram alunos do professor que residia na rua Potengi, justamente ao lado do Atheneu, pouca ou quase nenhuma referência se fez ao cearense nascido no Pereiro, como ele costumava dizer, cheio de orgulho e de empáfia.
                        Tive, também, ao lado de outros de minha geração a oportunidade e a sorte de ter sido discípulo do professor que ora relembro. Aquele jeito austero e elegante de falar são inesquecíveis. A sua cultura e a elegância no vestir permanecem indestrutíveis na minha memória. Acredito que ele fazia das tripas coração para se manter elegante, uma vez que professor estadual, de poucos ganhos, portanto.
                        Foram muitas as lições de literatura (portuguesa e brasileira), coisas muito do seu domínio. Era literato por natureza. Rodrigues Alves não exercia a cátedra apenas por exercer. Vivia a cátedra. Em sala de aula revelava-se um homem sério, franco, leal, abundante de moral e cultura, porque, não apenas preparava as aulas para exercitar os alunos e a matéria que lecionava. Ia mais além: dava vida às aulas, impregnava o ambiente de sinceridade e incentivos. Era, sim, na melhor assertiva, um homem de letras, com muito talento, que fazia resplandecer no discurso programático, todas as leituras agasalhadas no tempo e no espaço, a exemplo dos filósofos gregos. Ser aluno de Rodrigues Alves era ser aluno da vida, da euforia e aluno da esperança.
                        As suas aulas de literatura portuguesa e brasileira transformavam-se num desfile permanente de grandes autores. Lembro-me bem do destaque que dava aos escritores Raul Pompéia, Machado de Assis (o seu predileto), Lima Barreto, Aluísio Azevedo, José Américo de Almeida, Câmara Cascudo, Érico Veríssimo, Gilberto Freire, Jorge Amado, José Lins do Rêgo e aos poetas Castro Alves, Olavo Bilac, Álvares de Azevedo, dando ênfase à Semana de Arte Moderna, especialmente a Manoel Bandeira. Quanto aos escritores portugueses lembrava sempre Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Vieira e os poetas Camões, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, enaltecendo, ainda, Fernando Pessoa.
                        A minha turma do Atheneu (1º ano clássico – 1957/59) – era mista, uma novidade na época, podendo registrar que os alunos procediam de origem humilde – em sua maioria - mas, esperançosa, dinâmica e valorosa. As mulheres já demonstravam liderança e vontade de vencer, a exemplo de Valquíria Félix da Silva, Salete Bernardo, Marta (irmã de João Ururai), Maria Clara, Maria da Conceição Simonetti, Lúcia Saldanha, Dales Falcão, Izabel Bezerra e tantas outras que o tempo e a vida distanciaram. Lembro-me, também, de Gilka Bigois. Quanto aos homens, devo registrar Nei Leandro de Castro (o vocacionado), Glênio e Claudionor de Andrade Jr., José Dias de Souza Martins, Ronaldo Ferreira Dias, Danilo Bessa, Roosevelt Garcia, Borginho e Danúbio Rebouças Rodrigues – filho do lente (usava-se esse termo). As omissões ficam por conta da idade.
                        Assim, quero atestar nesta oportunidade, por um dever de justiça e gratidão, que o Prof. Rodrigues Alves foi a figura marcante da minha vida estudantil. O impressionante é que o mestre do Atheneu, que dava lições de decência e de língua portuguesa, entusiasmou uma geração que precisava estudar, compreender o mundo, sonhar e progredir.
                        Registro, ainda, o Rodrigues Alves idealista, avançado para o seu tempo, homem ligado às causas populares e ardente defensor da criação e implantação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da qual tornou-se, depois, professor.                                Tenho certeza de que os que tiveram o privilégio de conviver com RA jamais poderão esquecê-lo, pois ele faz parte da cultura que conseguimos armazenar ao longo do tempo e as demonstrações de cidadania permanecerão intactas nas mentes de seus admiradores.

                        Portanto, parabenizo o Dr. David de Medeiros Leite por ter optado pela figura do Professor Francisco Rodrigues Alves, fazendo reviver o homem e o mestre, quando de sua posse como sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, o que ocorrerá no próximo dia 17 de junho de 2005. Ao apertar a sua mão, Dr. David, o faço como o homenageado: Você parece que é do Pereiro?”...

5 de fevereiro de 2017

Uns clicks, uma cidade a descortinar




 Marcha dos Trabalhadores, 10 de novembro de 1938 - Avenida Deodoro -
 Hospital Infantil Varela Santiago




                                          Praça Sete de Setembro

                                          
                                           Rua João Pessoa com avenida Rio Branco


Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Parque da Cidade

Em minhas andanças nas salas do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, IHGRN, em meados de 2008/2009, historiador da SEMURB, me deparei com uma série de fotografias de cenas da cidade de Natal. Eram imagens da Avenida Rio Branco com a Rua João Pessoa, imagens da Avenida Deodoro, e, outras da Ribeira, nas imediações da Praça Augusto Severo até a subida da Avenida Junqueira Ayres, hoje, Avenida Câmara Cascudo. Fotos datadas de 10 de outubro de 1938.
O que chamou a atenção, minha e dos estagiários que me acompanhavam nesta pesquisa no IHGRN, foram as faixas de apoio e celebração por um ano de instalação do Estado Novo. Vários sindicatos de trabalhadores, de todo o Rio Grande do Norte, participaram deste desfile pelas principais ruas da capital, numa clara demonstração de adesão ao projeto político do Presidente Getúlio Vargas.
A cidade palco da primeira insurreição comunista da américa -  em novembro de 1935 ocorreu em Natal a Revolta Comunista -, vivia em outros tempos, sindicatos e o governo intervencionista demonstrava nas ruas o apoio ao ditador do Estado Novo, Getúlio Vargas, reflexo do cenário nacional, como sinalizou Oscar Pilagallo:
Os sindicatos, previsivelmente, também estavam com Getúlio. O presidente golpista ainda não fixara a imagem de “Pai dos Pobres”, mas desde o início da década era popular entre as camadas de menor renda. A Revolução de 30 pusera na agenda a questão trabalhista, criando um ministério para tratar do assunto. Os sindicatos foram colocados sob a tutela de Getúlio. De um lado, os trabalhadores obtinham vantagens corporativas determinadas pela legislação; de outro, submetiam-se ao controle ideológico. (PIGALLO, p. 83)

As fotos não deixam dúvidas quanto a influência getulista no movimento sindical norte-rio-grandense, o que corrobora com a afirmação do jornalista Pigallo, sobre as relações do governo com os movimentos sociais. Além do mais, existia toda uma máquina governamental movendo suas “garras” sobre os trabalhadores. Assim se expressa, o historiador Sérgio Trindade, sobre a relação do governo com os movimentos sociais:
Satisfazendo as reivindicações dos trabalhadores urbanos por meio de uma legislação trabalhista muito ampla, o presidente aproximava-se das camadas populares. Foram concedidos benefícios aos trabalhadores como forma de eliminar possíveis reivindicações, afastando assim a possibilidade de uma participação mais ativa dos trabalhadores na política. Também foi estabelecido um rígido controle sobre os sindicatos, submetidos ao Ministério do Trabalho e aos pelegos. (TRINDADE, p.292)

Faço essas considerações iniciais para convidar a reflexão sobre o uso da fotografia como fonte histórica importante, a muito já não se discute a foto como documento histórico, neste sentido, apenas me alinho aos historiadores que utilizam a fotografia, não apenas como “ilustração” da pesquisa, ou do texto final, a fotografia, a imagem, tem um papel fundamental enquanto documento histórico, assim, não se trata de ilustrações, mas, sim de fonte documental. Compreendo:
A imagem retida pela fotografia (quando preservada ou reproduzida) fornece o testemunho visual e material dos fatos aos espectadores ausentes da cena. A imagem fotográfica é o que resta do acontecido, fragmento congelado de uma realidade passada, informação maior de vida e morte, além de ser produto final que caracteriza a intromissão de um ser fotografo num instante dos tempos. (KOSSOY, p.22)

            A Praça Augusto Severo, toda arborizada, com arvores de grande porte, ao longe o Grande Hotel, são vestígios eternizados nos clicks, de um 10 de novembro de 1938, fotos realizadas para apresentar a participação popular, através dos sindicatos, nos festejos comemorativos de um ano de instauração do Estado Novo, hoje essas imagens captadas naquele distante 10 de novembro, nos diz muito da cidade.
            Ao acompanhar o desfile dos trabalhadores, fazemos uma viagem por ruas, prédios, vestuários, enfim, encontramos uma gama de informações a nos ajudar a compreender as transformações urbanas ocorridas na cidade de Natal. Os trilhos, caminhos do bonde, as linhas arquitetônicas, tudo caracterizando a Natal da década de 1930, uma cidade ainda não impactada com os efeitos da Segunda Guerra Mundial.
            A cidade de Natal, vista através da lente de um fotografo anônimo (não consegui identificar o autor das imagens), surgi em movimento, pessoas, faixas, ações cotidianas, tradutora do fazer de sua gente, no hotel Avenida, nos trilhos do bonde cortando a Rio Branco e a João Pessoa, a Praça Augusto Severo, e, suas arvores a simbolizarem uma cidade em um determinado tempo. Muito mais do que a manifestação celebrando um ano de Estado Novo, a série de fotografias, encontrada nos arquivos do IHGRN,  abrem horizontes sobre a cena urbana da capital Potiguar.
            Amigo velho, este, “Uns clicks, uma cidade a descortinar”, é um artigo em construção, o objetivo é fazer um diálogo entre a fotografia e a história, acreditando contribuir para a construção de uma melhor compreensão da fotografia como fonte documental. Façamos o diálogo.

REFERENCIA

PIGALLO, Oscar. A história do Brasil no século 20 (1920-1940). São Paulo: Publifolha, 2009.
KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ática, 1989.

TRINDADE, Sérgio Luiz Bezerra. História do Rio Grande do Norte. Natal: Sebo Vermelho, 2015.