19 de janeiro de 2017

A imprensa é preconceituosa? Eu não duvido.


Luiz Gonzaga Cortez.

   Nós somos copiadores e imitadores. E preconceituosos. De quê? De tudo. Mas, um lembrete: vou escrever sobre o comportamento dos nossos ilustres colegas jornalistas brasileiros. Além da decadência do jornalismo investigativo, aliás, acompanhando o rumo (ou sem rumo?) da grande imprensa do eixo Rio de Janeiro - São Paulo-Brasília, que de “grande imprensa” só tem a fama, os repórteres e redatores dos jornais potiguares foram contaminados pelo vírus da copiação, da imitação e da cultura preconceituosa. E imitam errado. Como, rapaz, diga aí?  Vamos devagar.
  Observem o noticiário da imprensa do eixo que antigamente era chamado de “sul maravilha” e as notícias dos jornais diários da província potengina sobre um assunto atual: a caixa com os gravadores do avião da Air France que caiu no Oceano Atlântico em 2009, no trajeto Rio de Janeiro-Paris.  Essas caixas são laranjas (outros dizem que são  rosas, vermelhas), mas os jornais e televisões do Brasil chamam-nas de “caixas pretas”. Elas sempre foram laranjas para facilitar a sua identificação na terra e no mar e em qualquer lugar do planeta. 
  Você já pensou uma caixa preta no fundo do oceano, a três, quatro ou cinco metros de profundidade, ao lado ou dentro de possíveis vegetações marinhas? Claro, seria mais difícil a sua localização. Mas, todos os comunicadores já estão habituados a tachar de preta, negra ou preto os eventos e acontecimentos ruins. Recentemente, a Tribuna do Norte fez uma chamada de primeira página  intitulada de “noite negra no futebol brasileiro”, se reportando as derrotas de times do América e do Grêmio, no Brasil e num país vizinho. 
  E a matéria na página interna acompanhava a chamada de capa. Essa “cultura” já está incorporada na imprensa nacional? Creio que sim. “A coisa tá preta”, uma expressão preconceituosa que ouvimos desde criança, é dito quando se refere a uma situação ruim, difícil e desagradável.
  Ou exemplo: estive numa casa de câmbio no “Praia Shoping”, na avenida Roberto Freire, e vi um pequeno cartaz com os seguintes dizeres: “Mercado negro é crime federal”.  Aí eu pergunto: onde está o mercado branco, o mercado amarelo? Cambiar moedas estrangeiras se faz em qualquer esquina deste país, nas calçadas de bancos particulares e estatais. A moda agora é cambiar nos bares e restaurantes chiques, digo, freqüentados por pessoas de maior poder aquisitivo. O cartaz da casa de cambio não poderia se referir ao criminoso  mercado paralelo?
  È por isso que concordo com Alberto Einstein (1879-1955), cientista alemão naturalizado americano, quando disse que “è mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.
   Além de preconceituosa, a imprensa e a mídia nacional é imitadora e copiadora do que  se diz, do que se veste, do que se usa, no estrangeiro. E nós embarcamos nessa canoa. Estamos copiando o que se diz e se faz nas televisões do novo “Eixão” (Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília). Querem um exemplo? Trocaram a palavra comum por recorrente. Quando querem dizer que o caso é comum, os empavonados apresentadores e noticiaristas da Globo e das demais redes de televisão dizem que o caso é recorrente. 
  Mestre Aurélio diz que recorrente é quem recorre de um feito judicial,  de uma sentença para outra instância superior, etc. Vejam os dicionários. E substituíram a palavra classificação por “ranking” (palavra americana que significaria colocação nos campeonatos de voleibol nos EUA).  Em tempo: Cascudo, na década de 30, escreveu que copiamos tudo do estrangeiro. Menino, essa cultura obtusa é antiga...
Luiz Gonzaga Cortez, jornalista.


13 de janeiro de 2017

Travessa Pax, memória em risco: Uma reflexão.


Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Parque da Cidade



PAX
Travessa memória,
Patrimônio em perigo.
Travessa rocha, maresia,
Pé de moleque, caminho de um tempo perdido.
Travessa de arenito, ferro, ferruginoso,
Formação barreira, litoral, falésias, som das ondas,
Ecoam gerações inteiras.
Travessa tempo, testemunha da urbe,
Silenciosa, aflita, atordoada grita, chora,
Olha o Potengi, Fortaleza dos Reis Magos,
Dunas, Alto da Torre, o progresso avizinha.
Travessa Tombada, corredor cultural,
Cascudo, Solar Bela Vista, Augusto Severo e Sachet,
O dirigível nos ares de Paris, do sonho de Ícaro ficou,
Patrimônio geológico da cidade Natal.
Travessa degradada, marcas humanas,
Mobilidade urbana, rochas substituídas,
Técnicas perdidas, mãos calejadas, cantarias
De um arenito com cheiro de mar,
Travessa Pax, travessa a cidade de histórias vividas.
(Luciano Capistrano)

A Travessa Pax, hoje é um dos nossos patrimônios históricos em risco de desaparecer. No andar do tempo, me parece, será um dos símbolos de uma época da cidade de Natal a figurar apenas nos empoeirados álbuns ou no mundo virtual, a imagem da travessa com seu calçamento em “Pé de Moleque”, não resistirá ao descaso dos poderes constituídos, IPHAN, Fundação José Augusto, FUNCART, os órgãos responsáveis pelas políticas de preservação de nossa memória material e imaterial, em que pese, algumas almas boas, fazem “vistas e ouvidos de mercadores”, fecham os olhos para a via que está entre a Casa de Câmara Cascudo e o Solar Bela Vista. Em pleno “Corredor Cultural”.
Quando um bem é tombado significa dizer que sua importância e valor são reconhecidos e, portanto, deve ser preservado e “protegido de qualquer dano ou destruição, para usufruto de todas as gerações – presentes e futuras” (CONTE & FREIRE, 2005, p. 39). Este é o caso da Travessa Pax. A fundação José Augusto e a Prefeitura de Natal, reconheceram-na como Patrimônio Histórico e o IPHAN, ao reconhecer o Centro Histórico de Natal como Patrimônio Histórico Nacional, delimitou um perímetro no qual estar inserida a Travessa Pax. Portanto o que não falta é legislação protetiva.
Amigo velho, a preservação da originalidade da primeira técnica de pavimentação utilizada nas ruas da cidade possibilitará as gerações vindouras, o direito a memória.
De rochas
(Para o Professor e Geólogo Marcos Nascimento)
Memórias de uma urbe
A se descortinar
Rochas que contam histórias
De um tempo
De uma gente
Transpira memórias em
Chão de pedras batidas
A erguer identidade
Material / imaterial
De um tempo
Distante que se faz presente
Em praças
Em ruas
Lugares de memórias
Em monumentos
De rochas
Vestígios de historias.
(Luciano Capistrano)

Causa-me náusea sempre que ando por nossas ruas dialogando com meus alunos, e, ou quando organizo circuitos históricos, e, desço a Avenida Câmara Cascudo, ao testemunhar o “desmanche” da Pax.
A mim, um simples historiador e professor de história, me resta a escrita, a indignação traduzida em palavras, espero, assim, contribuir com essa reflexão na formulação de políticas de intervenção, objetivando a preservação de tão importante vestígio de nossa história.
A uma ideia equivocada de que Natal não tem história, a cidade respira história.
Olhemos nossos vizinhos, João Pessoa e Recife, para com eles aprendermos a preservar nosso centro histórico.
Que esta “Travessa Pax, memória em risco: uma reflexão”, provoque outros escritos, incomode, e, deste modo possa ser, para além das palavras, um grito contra a inércia dos organismos responsáveis pelas políticas de preservação do nosso patrimônio material e imaterial.


10 de janeiro de 2017

A GAROTA DE MEUS OLHOS...

 Bené Chaves

       Desde o momento que conheci aquela menina uma enorme euforia tomou conta de mim e meu corpo tremia quando olhava sua cor trigueira de olhos castanhos claros a acariciar-me, às vezes, somente as mãos, outras vezes o meu imberbe rosto. E meditava sobre um possível e talvez sério relacionamento.
     (O homem, de um modo geral, pensa e tenta se firmar como uma pessoa capaz de obstáculos talvez até inacreditáveis. A mulher, por sua vez, sensível e maternal quase sempre, muito embora, com raras exceções, um pouco difícil de entender, procura conciliar supostas irritações e, então, assenta-se como uma companheira leal.Mas, em outras ocasiões, dá-se justamente o contrário. E a recíproca fica num vai-e-vem travesso, a chamada infindável e insondável intermitência de valores. Por isso mesmo seria imprevisível qualquer união ou desunião de pensamentos).
      Eu e ela éramos ainda jovens, não tínhamos noção alguma de um perigo maior que pudesse se avizinhar. Portanto, a insistente pergunta: poderíamos enfrentar situações vexatórias e contraditórias contanto que permanecêssemos juntos um ao outro? Não sabia até onde iria o presente devaneio, mas o meu intento era tão somente viver aquela fantasia, fosse ela duradoura ou não. Coisa de menino besta e ansioso para arrebatar uma libido que florescia na viçosa idade. E acho que a alternativa também era verdadeira, embora castrada pelas normas repressoras do sexo feminino.
    A vida era assim mesmo... Que ninguém duvidasse dela, pois a própria entortava e retorcia do jeito que quisesse, se fazendo senhora de suas determinações e deteriorações.                
    Ela antevia as agilidades e vícios, contudo também as covardias de uma existência. Dizia-se que vivia em constante mistura consigo. E, claro, com os outros. Era uma vida obscura, não sei, contudo, se detestada. Em presença, no entanto, de tantas indefinições, todos ficavam indignados com a mesma, vendo-a passar, aleatória, diante de circunstâncias e circunvizinhanças.
   Seria uma natureza determinante ou certa força energética, absoluta? Pois sim!, pois não! Sim! Não! Pois! Senão?
Eu não me incomodava com deliberações existentes e estabelecidas sejam lá por quem. Minha idade não permitia. Queria apenas levar adiante aquela paixão adolescentemente buliçosa.
    E que fosse pro diabo qualquer resolução em contrário! Seguia uma conceituosa e ambígua definição de Painhô: ‘O essencial da vida existia pra se comer (literalmente ou não) mesmo, não via necessidade de me necessitar’.



29 de dezembro de 2016

DANDO UM ALÔ E ANUNCIANDO NOVOS RUMOS



Por Flávio Rezende*

            Caro possível leitor, durante muito tempo compartilhei meus "escritos" através de uma lista enorme de endereços de e-mails, e semanalmente enviava ou minhas reflexões ou os boletins do bem da Casa do Bem. Quem me acompanhava deve ter notado ausência neste último ano,  e de fato, ocorreu.
            É que fiz opção por escrever textos mais curtos e publicar num blog, o www.blogflaviorezende.com.br, pelo qual agradeço visitação e divulgação caso julgue interessante meus escritos. No espaço aqui posto publico minhas ideias das coisas através de textos e entrei também na onda dos vídeos, postando algumas observações neste formato.
            Com relação a Casa do Bem continuei administrando até hoje e, agora, dia 1 de janeiro, passo a presidência para Vânia Cruz, assumindo o cargo de diretor de comunicação da ONG, continuando servindo a comunidade de Mãe Luiza da mesma forma, agora de maneira mais leve posto que a presidência exige muito e já estou nisso há 22 anos, estando um pouco cansado de tantas lutas e compromissos.
            Passo a direção da Casa do Bem que idealizei e fundei feliz e com a consciência tranqüila, com as contas aprovadas pelo Ministério Público e sem nenhum tipo de problema judicial, denúncia e nenhum acidente envolvendo os jovens, adultos e idosos. Digo isso pois imagina a quantidade de vezes que levamos até 250 jovens para banhos de piscina, de mar, jogos de futebol, shows etc. e nunca em tempo algum, ocorreu nenhuma negatividade.
            Fico feliz com todos os apoios que recebi, pois consegui dirigir e manter ativa e viva uma entidade sem captar recursos no exterior e nem de governos, tendo apenas por uns 3 anos convênio de pouca monta com a prefeitura da cidade do Natal, no caso 2.500,00, que desisti de continuar diante de tanta burocracia por valor tão pequeno diante de nossas necessidades. Optei por continuar apenas com os depósitos em conta corrente dos nossos amigos do bem e assim fui indo até agora, entregando a Casa do Bem sem nenhuma conta atrasada, nenhuma pendência, com todas as certidões negativas sendo geradas , como já disse, sem nenhum processo de natureza nenhuma.
            O saldo positivo é enorme, muita gente formada em cursos, muitos jovens com habilidades diversas agregados através de esportes, artes marciais, cultura, educação, com os jovens e idosos tendo conhecido muitos pontos turísticos, ido a eventos de todo tipo, recebido ovos de páscoa todos os anos, presentes, comemorado todas as datas, tendo acesso a palestrantes diversos e até caros, freqüentado restaurantes, museus, estádios de futebol, cinemas, teatros, enfim, muitas coisas mesmo ocorreram sem que eu colocassem nisso questões de política e nem de religião, não cobrando nada e nem exigindo coisíssima nenhuma de ninguém em tempo algum.
            Deixo a presidência da Casa do Bem da mesma forma que entrei, nunca usei um centavo sequer para viajar para eventos, coisa bem aceita neste ramo, evitando congressos e seminários e, quando ia, com meus próprios recursos. Agora é tocar o barco até a aposentadoria como servidor federal, ampliar minha atuação jornalística como blogueiro, cuidar mais dos filhos e parentes, viajar que adoro e continuar no bem de maneira mais leve, uma vez que a presidência é muito complexa e cheia de compromissos diversos.
            Que a Casa do Bem siga sua linda história de amor com os novos dirigentes e eu me despeço de vocês deste canal de comunicação via e-mail, estando meus posts e pensamentos disponíveis no www.blogflaviorezende.com.br.
            Obrigado a todos por todos estes anos de convivência e muita luz em 2017 e por todo o sempre.
            Luzzzzzzzzzzzzzzzzzz
 *é escritor, jornalista e blogueiro em Natal/RN (jornalistaflaviorezende@gmail.com)


27 de dezembro de 2016

O LADO BOM DA VIDA

 Bené Chaves

               Numa fase intermediária de minha adolescência, aí em torno dos catorze aos dezoito anos, comecei uma espécie de informação e conhecimento do sexo em si e a descoberta desse obscuro objeto do desejo e que proporciona momentos agradáveis para todos.
             Claro que minha mente começava a fervilhar de uma curiosidade ímpar.  Então andava junto com os amigos da época nas chamadas ‘zonas’ da cidade, que eram os cabarés do período, locais onde se podiam visitar as putas e se deliciar naquela satisfação momentânea e espontânea.
           (Gupiara era pródiga e          abastecida nesse quesito de ‘moças alegres’. Bairros inteiros teriam uma ‘distribuição’ bem ao gosto do freguês, como o bairro da Ribeira principalmente e suas casas noturnas a inquietar os meninos atrás de belas mulheres para o seu prazer semanal. Também o cabaré de ‘Maria Boa’ era freqüentado pela mais fina flor do machismo gupiarense, bordel este localizado, ironicamente, em uma rua de nome Padre Pinto, final da Cidade Alta e quase pegando outro bairro, o do Alecrim. A Padre Pinto ainda permanece lá, porém a chamada ‘casa suspeita’ foi fechada para desespero de seus antigos clientes.Depois vieram os motéis e o panorama mudou como da água para o vinho).             
           Ou uma notável indiscrição em conhecer as duas facetas, tanto as mulheres de vida mundana, como também os lugares chulos onde se empenhavam nas suas labutas diárias.
Elas eram tratadas como putas mesmo, visto que somente depois melhoraram a nomenclatura e foram reconhecidas como prostitutas, o que na prática não mudava em nada.
            Pois é, as mulheres de vida difícil, que impropriamente seriam apelidadas de vida fácil, eram obrigadas a vender o corpo em troca de uma sobrevivência nada exemplar. E a gente, sem querer, contribuía para que o problema se agravasse, porque só pensava nos impulsos voluntários da idade e na vontade de apreender e aprender os primeiros passos púberes do sexo e o seu delicioso prazer.
          Nesse ínterim Gupiara queria fazer-se desigual, mas ia crescendo um tantinho aqui e outro acolá. Sempre ajudada de uma habilidade maliciosa neste lugar e também naquele outro. Lógico que com as mesmas pessoas começando a mandar, tanto perto como também ali distante, num total predomínio de uma facção ou grupo.
          Era, pois, uma perfeita engrenagem que dariam à sorte ou azar (que fado, que fado...) da cidade. E, evidentemente, ao futuro daqueles indivíduos e de quantos desejassem seguir suas pegadas. Assim caminhava Gupiara... Pra onde, em boa ou má direção, não interessava. Sabia-se que iria e seria gostosa, apetecível. Para os que quisessem devorá-la e degustá-la com gulosa fome.
           Mas, com o passar do tempo, me preocupava mais e mais aquela sina ajudada e muito pela corruptela insidiosa e mudança de feições. Inclusive, desinclinada (ou inclinada?) para esquivos e sabidos arroubos delituosos. Apre! Irra!...
             E, entre uma coisa e outra, fui deixando de lado minha disposição para as bisbilhotices, gozos ou prazeres curiosos e desejando, sobretudo, me apegar também às garotas virgens que certamente surgiriam.
Portanto, prioridade número um: meninas. Número dois: moças. E número três: donzelas. Quer dizer: todas as precedências tinham um único objetivo: mulheres.
           Foi daí que vim a conhecer uma garota especial, ela que seria a primeira menina-moça com quem tivera um contato mais íntimo, talvez até sonhos de olhos abertos (ou fechados), desses que nos levam às fronteiras de um êxtase pleno e absoluto. E me lembrei, então, do filme ‘Férias de Amor’, o encontro fatal e quase carnal entre o William Holden e a Kim Novak em uma das danças mais românticas e sensuais que vi na tela cinematográfica.