27 de dezembro de 2016

O LADO BOM DA VIDA

 Bené Chaves

               Numa fase intermediária de minha adolescência, aí em torno dos catorze aos dezoito anos, comecei uma espécie de informação e conhecimento do sexo em si e a descoberta desse obscuro objeto do desejo e que proporciona momentos agradáveis para todos.
             Claro que minha mente começava a fervilhar de uma curiosidade ímpar.  Então andava junto com os amigos da época nas chamadas ‘zonas’ da cidade, que eram os cabarés do período, locais onde se podiam visitar as putas e se deliciar naquela satisfação momentânea e espontânea.
           (Gupiara era pródiga e          abastecida nesse quesito de ‘moças alegres’. Bairros inteiros teriam uma ‘distribuição’ bem ao gosto do freguês, como o bairro da Ribeira principalmente e suas casas noturnas a inquietar os meninos atrás de belas mulheres para o seu prazer semanal. Também o cabaré de ‘Maria Boa’ era freqüentado pela mais fina flor do machismo gupiarense, bordel este localizado, ironicamente, em uma rua de nome Padre Pinto, final da Cidade Alta e quase pegando outro bairro, o do Alecrim. A Padre Pinto ainda permanece lá, porém a chamada ‘casa suspeita’ foi fechada para desespero de seus antigos clientes.Depois vieram os motéis e o panorama mudou como da água para o vinho).             
           Ou uma notável indiscrição em conhecer as duas facetas, tanto as mulheres de vida mundana, como também os lugares chulos onde se empenhavam nas suas labutas diárias.
Elas eram tratadas como putas mesmo, visto que somente depois melhoraram a nomenclatura e foram reconhecidas como prostitutas, o que na prática não mudava em nada.
            Pois é, as mulheres de vida difícil, que impropriamente seriam apelidadas de vida fácil, eram obrigadas a vender o corpo em troca de uma sobrevivência nada exemplar. E a gente, sem querer, contribuía para que o problema se agravasse, porque só pensava nos impulsos voluntários da idade e na vontade de apreender e aprender os primeiros passos púberes do sexo e o seu delicioso prazer.
          Nesse ínterim Gupiara queria fazer-se desigual, mas ia crescendo um tantinho aqui e outro acolá. Sempre ajudada de uma habilidade maliciosa neste lugar e também naquele outro. Lógico que com as mesmas pessoas começando a mandar, tanto perto como também ali distante, num total predomínio de uma facção ou grupo.
          Era, pois, uma perfeita engrenagem que dariam à sorte ou azar (que fado, que fado...) da cidade. E, evidentemente, ao futuro daqueles indivíduos e de quantos desejassem seguir suas pegadas. Assim caminhava Gupiara... Pra onde, em boa ou má direção, não interessava. Sabia-se que iria e seria gostosa, apetecível. Para os que quisessem devorá-la e degustá-la com gulosa fome.
           Mas, com o passar do tempo, me preocupava mais e mais aquela sina ajudada e muito pela corruptela insidiosa e mudança de feições. Inclusive, desinclinada (ou inclinada?) para esquivos e sabidos arroubos delituosos. Apre! Irra!...
             E, entre uma coisa e outra, fui deixando de lado minha disposição para as bisbilhotices, gozos ou prazeres curiosos e desejando, sobretudo, me apegar também às garotas virgens que certamente surgiriam.
Portanto, prioridade número um: meninas. Número dois: moças. E número três: donzelas. Quer dizer: todas as precedências tinham um único objetivo: mulheres.
           Foi daí que vim a conhecer uma garota especial, ela que seria a primeira menina-moça com quem tivera um contato mais íntimo, talvez até sonhos de olhos abertos (ou fechados), desses que nos levam às fronteiras de um êxtase pleno e absoluto. E me lembrei, então, do filme ‘Férias de Amor’, o encontro fatal e quase carnal entre o William Holden e a Kim Novak em uma das danças mais românticas e sensuais que vi na tela cinematográfica.


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